20200705

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BAIRRO ZINE 0.6
carta desd'o bairro

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(1) O EXCESSO DE VIAGEM - ensaio a uma inveja
(2) AMORCÃO - teórico amorizações
















(1) O EXCESSO DE VIAGEM - ensaio a uma inveja

Ah como odeio quem viaja constantemente, quem por aí anda percorrendo viajando o mundo, quem se move locomove por aí, como odeio quem me responde dizendo Paris - Moscovo - Fez fiz. Como utilizo eu aquela interjeição? Como me inflamo por tão pouco e depois o escrevo como apropriado? Se odeio quem viaja não odeio verdadeiramente quem o faz - detesto sim naquilo que se transforma. Não odeio a pessoa, invejo o viajante nela. E invejo sim, invejo - porque o quero também, porque me quero ver viajante também, concorrer em não sei quantos países por esse mundo e voltar dizer contar mostrar também a outros. Isto vi e percorri, construindo então enquanto o digo irónico um sorrisinho detestável de experiente e conhecedor caixeiro.

Da próxima vez que comigo partilharem uma viagem - e há sempre uma próxima, sempre há, milhares de viajantes nascem todos os dias e muitos a mim desaguam contando história de mil e uma noites - direi perfazendo uma mentira, já o fiz, já o vi, já conheço, já lá estive, é bonito sim, é interessante, desgostei daquilo, fui maltratado ali, inventando nomes de lugares e de ruas que serão impossíveis de verificar. Afinal, li o Cidades Invisíveis, por dá cá aquela palha é facílimo inventar cidades e história tirando-as do bolso, já construídas e tecidas em credibilidade.

(2) AMORCÃO - teórico amorizações

Diz-me tu se o amor não é por vezes amorcão? Se algo há que termina - naturalmente e por mais que se diga que tudo tenha terminado em bem, nunca isso é verdade. Pois se algo termina e o termo aqui é bem explícito - terminar - é porque é em estado de mal (estar, fé, dizer, etc...). Se acabasse em bem não acabaria - continuava. Pois se termina é porque mal estava e se bem estivesse, terminaria apenas na cama. Ponto.

A consciência de que o amor é cão - amorcão, aquilo a que chamo a uma forma de estar e de comportar e reagir após relações desavindas (aproximando-me ainda mais ao conceito digo que amorcão é esse estado de suspensão e afastamento dos outros - ou de agressividade sobre os outros, isto depende de quem se trata - em que nada ou muito pouco parece realmente interessar além do sentimento de desfasamento que temos sobre o/a tal com quem estávamos) - surge sempre após período de insatisfação, ou seja, imediatamente antes de terminar seja o que for que se tenha iniciado. E se insatisfeito se estava é porque - e ajudem-me aqui - algo estaria correndo mal! Bingo! E perdão então se me socorro do gerúndio para me debruçar sobre isto, mas é que é tão delicioso quanto é explícito.

Vejamos um teste sobre as relações humanas. Vamos estando - revelador de que terminarão breve ou que se aguentam em relação mais ou menos atrozmente. O gerúndio é a melhor forma verbal para justificar aquilo que é passageiro ou efémero! É perfeito não o é?

E desculpem lá outra vez - ando a ler novamente Dostoievski e isso reflecte-se em deambulações de estilo!

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Paleta de som - The Avalanches, «We Will Always Love You»

Imagem - Fotografia dentro de avião ao regressar depois de uma semana de férias em São Miguel, Açores, Maio de 2023.

Composto enquanto saltitava entre projectos de licenciamento por tele-trabalho, Abril de 2020.

Notas: (1) flea market, swap meet, marché aux puces, feira da ladra, bazaar, mercadillo; as que conheço são as de encants vells em Barcelona, el rastro em Madrid, portobello road em Londres e a da ladra em Lisboa (no entretanto passei pela vandoma, Porto; feira sem regras, Coimbra; place du jeu de balle, Bruxelas; o flohmarkt/naschmarkt em Viena; zandfeesten em Brugge e outros em Gent, Hamme e Berlim); (2) linha azul, da gaivota.

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20200620

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BAIRRO ZINE 0.5
carta desd'o bairro
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(1) ESTEOUTRO BAIRRO - triangulação espontânea
(2) AMOR EM TEMPOS DE PANDEMIA - teórico amorizações







(1) ESTEOUTRO BAIRRO - triangulação espontânea

Escrevo umas linhas mais, porque é de conforto e de prazer que me faz a escrita. Parece certeira, cresce automática, flui naturalmente, assenta por aqui. Mesmo que sem qualquer motivo ou objectivo, escrever faz-me alma, arrebita, faz-me fogaça no ventre e na cara, conforta-me. Faz-me flow (1). Faço aqui uma breve pausa e compro o livro, finalmente. Já está. Chegará numa semana, mais ou menos vírus a entaramelar os percursos e a distribuição postal. Escrever é uma necessidade fisiológica, tão necessária que a sua ausência provoca desconforto, a sarar com pelo menos uma ou duas linhas - nada de haiku - a compor uns pensamentos. Escrevo agora e retomo-o, este bairro zine que foi sempre irregular, num novo bairro, numa nova cidade, numa tal de «nova normalidade». Alta (antes, o original do primeiro Bairro Zine, se bem me recordo, era Bairro Alto, daí também o nome escolhido); Coimbra (era Lisboa - LX) e a «nova normalidade», daquelas expressões certeiras e acertadas de que se não conhece a autoria e que bem definem um determinado modus vivendi, paradigmas, que é a situação pandémica que cobriu o mundo de um manto diáfano de incerteza e que ainda nos devassa.

(2) AMOR EM TEMPOS DE PANDEMIA - teórico amorizações

Em tempo de pandemia, em que os pensamentos vivem acossados entre quatro paredes e em que se limitaram os horizontes do eu, as relações e os sentimentos sobrevivem num confinamento difícil. Mesmo para aqueles que não podem prescindir de trabalhar longe de casa, em que os confinamentos são menos geográficos, mas também mentais. Entre quatro paredes segue o amor cão ou o amor longe. Quantos viram cortada a sua relação pela imposição de afastamentos ou então quantos se viram na impossibilidade da corte, quando a hipótese era ainda uma semente. Aos arredados do relacionamento, acrescem os exaustos do relacionamento, aqueles para quem a convivência era difícil e agora a ela se viram obrigados. Ou ainda aqueles que vieram a descobrir algo que nem imaginavam, que a sua relação estava por um fio e as suas quatro assoalhadas só o precipitaram. Há muitas e múltiplas vivências que se viram forçadas, quase do dia para a noite, a reinventar-se e reconsiderar-se. A interacção humana é um bem precioso e também um gesto singular. Certamente que para cada duas pessoas que se aproximou, haverá certamente duas que se afastaram e ainda outras duas que se viram irremediavelmente acossadas, por falta de via de fuga, perante qualquer violência que já vinha de antes. Pandemia não é uma panaceia. Isto dará certamente um texto de teatro ou um livro, algo. (2)

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Paleta de som - Young Fathers : In My View + Angelo Badalamenti : Fire Walk With Me 
Imagem - Kinetic Drawings, Bairro Alto, Lisboa, Setembro de 2011

Composto enquanto saltitava na composição de outros dois textos durante tempos de pandemia, confinado em casa na Alta de Coimbra, Abril de 2020

Notas: 1) A partir da noção de flow, the psychology of optimal experience, postulada por Mihaly Csikszentmihalyi; 2) Imagino algo na linha de Sarah Kane, ver Pinter, também.
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Ler as anteriores : BAIRRO ZINE 0.1BAIRRO ZINE 0.2 | BAIRRO ZINE 0.3 | BAIRRO ZINE 0.4 

20200501

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CRÓNICA CÓNICA 1.0
compras nos supermercados em tempos de covid19



















É tudo uma questão de distâncias. Ao sair de casa, neste tempo de pandemia, é mais importante manter as distâncias do que insistir nas aparências. Até porque o menos aparente é mesmo qualquer normalidade. Circulamos pela ruas e pelas avenidas como num bailado, como se descrevêssemos o acasalamento ritualizado de um par de pássaros que se vão medindo e entreolhando à distância, em crescentes voluptuosidades, amontoando piares e seduções a roçar o insuportavel. Piu, piu, dois metros, um metro, metro e meio. Mantém, mantém-te. Equidistantes na corte. Uma nova geometria para circular nas cidades inteiras. 

Como é que um pássaro mede a distância deste para aquele beirado, enquanto saltita entre um e o outro, peripatético; como é que um felino se apercebe da distância de si até à presa desejada, para melhor calibrar o salto; como é que mantemos a distância constante entre nós e o outro ao perambular assim pela rua? Das coisas mais complicadas, nesta orquestração espacial, é mesmo o fazer compras no supermercado. Não é tanto pelas filas que se formam para entrar no super ou no hiper, processo em que me vi a viajar um par de décadas até à adolescência, em que a filtragem era por número e equilíbrio de género à entrada da discoteca. O complicado é a manutenção das distâncias dentro de um espaço de coxias rasgadas a régua e esquadro que nos habituáramos a percorrer, ziguezagueando despreocupadamente entre expositores, escolhendo e analisando produtos e marcas com as mãos. 

O aparato do toque tornou-se complexo, cada gesto e cada escolha uma luta de ponderações. Levar o fruto e o tubérculo assim que neles se toca, depois da irremediável escolha pelo olhar, é um novo hábito. Já não há regras dos 15 segundos, se toca, é levar. Também não se pode abdicar de rodar as embalagens para estudar os ingredientes, mas é fazê-lo protegido. Tocar nos sacos, nos carros, no pão, o transporte dos artigos, o processo de pagamento e a recolha do talão e outros sei-lás, dezenas de pormenores que nos passavam ao lado, por irrelevantes e automáticos, têm agora que ser reconsiderados. O afã consumista reduzido a um lufa-lufa de preocupações nos seus detalhes. Já todos o dizem, o Demónio ocupou o lugar de Deus nos detalhes. 

Aparece então alguém ao fundo do corredor caminhando em sentido contrário, um pequeno pânico, imaginamos logo um duelo pelo espaço, como numa cidade do Faroeste. Duas opções se apresentam: bater em retirada ou passar por ele de lado, em movimentos de caranguejo. De todas as maneiras fica o sabor da derrota. Viral. E todo o equipamento: viseiras, luvas, máscaras, desinfectante, álcool gel, álcool. Circulamos com segundas peles para uma dose-extra de protecção. Até um simples encontro de olhares é uma quase violência, que afastamos rapidamente, chocalhandos desculpas internas. Esta é uma nova ficção-realidade, uma culpa colectiva que não sabemos explicar ou expiar. A saída por mantimentos abre inúmeras possibilidades de entradas ao vírus, daí que se instalem ansiedades. Para uns quantos portugueses até será das poucas idas ao exterior, assume-se então como passeio higiénico. Há então que ser higienizado, também mentalmente. Temos andado a conter o mercado dos afectos e o aparato do toque. Não apenas na prática e nos hábitos, na nossa cabeça também. Até que se terminem os enlatados e vaguem as estantes das despensas e tenha que se empreender umas próximas compras numa pandemia perto de si.

imagem: SARS-CoV-2 em CAD