20220605

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BAIRRO ZINE 0.9

carta desd'o bairro
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(1) CRÓNICA CÓNICA - compras nos supermercados em tempos de covid19
(2) SIGNO COVIDIANO - conto



(1) APONTAR UM DIÁRIO - formato pensado

É tudo uma questão de distâncias. Ao sair de casa, neste tempo de pandemia, é mais importante manter as distâncias do que insistir nas aparências. Até porque o menos aparente é mesmo qualquer normalidade. Circulamos pela ruas e pelas avenidas como num bailado, como se descrevêssemos o acasalamento ritualizado de um par de pássaros que se vão medindo e entreolhando à distância, em crescentes voluptuosidades, amontoando piares e seduções a roçar o insuportavel. Piu, piu, dois metros, um metro, metro e meio. Mantém, mantém-te. Equidistantes na corte. Uma nova geometria para circular nas cidades inteiras. 

Como é que um pássaro mede a distância deste para aquele beirado, enquanto saltita entre um e o outro, peripatético; como é que um felino se apercebe da distância de si até à presa desejada, para melhor calibrar o salto; como é que mantemos a distância constante entre nós e o outro ao perambular assim pela rua? Das coisas mais complicadas, nesta orquestração espacial, é mesmo o fazer compras no supermercado. Não é tanto pelas filas que se formam para entrar no super ou no hiper, processo em que me vi a viajar um par de décadas até à adolescência, em que a filtragem era por número e equilíbrio de género à entrada da discoteca. O complicado é a manutenção das distâncias dentro de um espaço de coxias rasgadas a régua e esquadro que nos habituáramos a percorrer, ziguezagueando despreocupadamente entre expositores, escolhendo e analisando produtos e marcas com as mãos. 

O aparato do toque tornou-se complexo, cada gesto e cada escolha uma luta de ponderações. Levar o fruto e o tubérculo assim que neles se toca, depois da irremediável escolha pelo olhar, é um novo hábito. Já não há regras dos 15 segundos, se toca, é levar. Também não se pode abdicar de rodar as embalagens para estudar os ingredientes, mas é fazê-lo protegido. Tocar nos sacos, nos carros, no pão, o transporte dos artigos, o processo de pagamento e a recolha do talão e outros sei-lás, dezenas de pormenores que nos passavam ao lado, por irrelevantes e automáticos, têm agora que ser reconsiderados. O afã consumista reduzido a um lufa-lufa de preocupações nos seus detalhes. Já todos o dizem, o Demónio ocupou o lugar de Deus nos detalhes. 

Aparece então alguém ao fundo do corredor caminhando em sentido contrário, um pequeno pânico, imaginamos logo um duelo pelo espaço, como numa cidade do Faroeste. Duas opções se apresentam: bater em retirada ou passar por ele de lado, em movimentos de caranguejo. De todas as maneiras fica o sabor da derrota. Viral. E todo o equipamento: viseiras, luvas, máscaras, desinfectante, álcool gel, álcool. Circulamos com segundas peles para uma dose-extra de protecção. Até um simples encontro de olhares é uma quase violência, que afastamos rapidamente, chocalhandos desculpas internas. Esta é uma nova ficção-realidade, uma culpa colectiva que não sabemos explicar ou expiar. A saída por mantimentos abre inúmeras possibilidades de entradas ao vírus, daí que se instalem ansiedades. Para uns quantos portugueses até será das poucas idas ao exterior, assume-se então como passeio higiénico. Há então que ser higienizado, também mentalmente. Temos andado a conter o mercado dos afectos e o aparato do toque. Não apenas na prática e nos hábitos, na nossa cabeça também. Até que se terminem os enlatados e vaguem as estantes das despensas e tenha que se empreender umas próximas compras numa pandemia perto de si.

(2) SIGNO COVIDIANO - tema: um casamento cancelado em tempos de pandemia
género: conto

A igreja estava toda iluminada. Ou não, para já ainda não, ela surgia assim apenas na fértil imaginação de Eduarda. Ela tinha-se ocupado nestes meses com a preparação do seu casamento com Carlos, apurando-o até ao mais ínfimo detalhe. Estava agendado para 13 de Junho, uma data auspiciosa para enlaces. Empenhou-se com minúcia, incensada, escolhendo desde a gramagem do papel dos convites a enviar por correio, até à procura do equilíbrio cromático dos arranjos florais para o templo onde trocariam os votos. Era um aprumo tal, nunca visto, que a levou até a eleger cuidadosamente o perfume para impregnar o papel dos convites. Um acentuado cheiro a cipreste atlântico, o que é uma forma mundividente de proclamar Cedro-do-Bussaco, formal nominal mais térrea, chata. Ou ainda a atenção ao escolher a sua roupa interior e a das suas damas de honor para aquela e para a última ocasião. Azul, algo emprestado, modas de fora, muitos frufrus. Tudo tão afinado quanto a cadência esperada de um metrónomo e a regularidade de um relógio suíço. Tudo afinava certo, com horas e ponto. O que faltava a estes planos, talhados até ao milímetro da certeza, era algum espaço para o improviso, pois nada fora deixado ao acaso, a um fortuito furtivo. 

Eduarda nasceu para isto, sentia-o à flor da pele, na epiderme, crescera a sonhar com este momento. Nada podia parar a engrenagem que Eduarda tinha posto em funcionamento desde o primeiro momento em que se imaginou casada, com todos os tiques e atavios de quem se imagina de branco, de quem se finge virginal por uns momentos, a trepar até ao altar de braço em braço dado e a declamar depois aquela ladainha de desejos para a eternidade, vigiada de perto por uma batina semi-divina. Depois, em rápida sucessão, beijo, chuva de arroz, festa e dança, noite lunar, núpcias comprometidas e restante de vida a dois. A cadência estava programada com o acerto de um relógio suíço. Para o bem e para o mal, felizes para sempre.

Mas foi então, que vinda do nada e sem que algum oráculo enfim acertasse na sua aparição, chega a pandemia de 2020 para desacertar todos os planos de Carlos e de Eduarda, de Eduarda com Carlos. Todo o seu calendário, até então pormenorizado ao detalhe, desfez-se. Se quem casa quer casa, há que ainda somar-lhe que saúde é outro requisito de relevo. A virose apresentou um dilema a Eduarda. Como manter as aparências sem estragar os planos de casamento. Cancelar o casamento ou continuar com a cerimónia? Eduarda entrava em pânico horrorizada com a perspectiva das fotografias da boda repletas de máscaras, semblantes desbotados nas fotos, caras plastificadas na memória, expressões escondidas, uma cerimónia pontilhada de azuis cirúrgicos e aromas higienizado pelo ar. Não pode ser.

Passou, por isso, a adiar. Primeiro quinze dias, depois um mês, mais tarde até ao Verão, quando tudo isto certamente teria passado. A certeza de Eduarda acerca do fim da pandemia renovava-se todas as semanas, apesar de a pandemia não mostrar a mesma consideração. O vestido permaneceu pendurado no armário, protegido por uma capa branca que, à medida que os meses avançavam, adquiria o aspecto de um fantasma doméstico. Carlos, que nunca participara verdadeiramente na organização do casamento, recebeu os adiamentos com uma serenidade que Eduarda confundiu com maturidade. Na realidade, limitava-se a obedecer às autoridades sanitárias e à sua natural inclinação para deixar os acontecimentos decidirem por ele. Foram confinados juntos. A princípio, Eduarda tentou convencer-se de que aquele seria um ensaio para a vida conjugal. Organizou refeições temáticas, noites de cinema e pequenos-almoços demorados. Chamava à sala o restaurante, à varanda o jardim e ao corredor o passeio higiénico. Carlos aceitou tudo durante três dias, ao quarto, começou a fechar-se no escritório, o pequeno quarto adaptado a que chamava de escritório. Ao quinto, passou a almoçar diante do computador e, ao sexto, Eduarda ouviu-o rir sozinho. Era uma gargalhada breve, ligeira, quase juvenil., não se parecia com nenhuma das que ela conhecia.

A responsável chamava-se Raquel. Tinha sido colega de Carlos muitos anos antes e reaparecera numa reunião de trabalho por videoconferência. A pandemia aproximava quem estava longe e afastava quem partilhava o mesmo sofá. Goethe talvez reconhecesse nisso uma nova versão das afinidades electivas, versão contemporânea, por fibra. Os corpos permaneciam imóveis, encerrados nas suas casas, enquanto os afectos atravessavam ecrãs, paredes e fusos horários com uma facilidade que não era permitida às pessoas. Carlos começou por falar com Raquel acerca de trabalho, depois falaram da quarentena, em seguida passaram a falar de tudo aquilo que não diziam a ninguém. Ela vivia sozinha, fazia pão e tinha uma planta que parecia morrer todas as terças-feiras. Carlos achou graça à planta, Raquel achou graça a Carlos e, pouco depois, deixaram de precisar de assuntos.

Eduarda, entretanto, procurava quintas com espaços exteriores e empresas capazes de fornecer máscaras personalizadas com as iniciais dos noivos, desenhara já três modelos. Um deles tinha pequenas alianças douradas junto às orelhas. Não reparou de imediato na mudança, reparou apenas que Carlos tomava banho antes das reuniões virtuais e começara a usar perfume para trabalhar a dois metros da cama. Quando lhe perguntou a razão, respondeu que precisava de conservar rotinas. Eduarda, que acreditava profundamente nas rotinas desde que fossem organizadas por ela, considerou a explicação razoável.

Quem percebeu tudo foi o vizinho da frente, o senhor Ega, reformado, viúvo e entregue à observação das janelas alheias desde que as suas deixaram de lhe oferecer novidades. Via Carlos aparecer diariamente à varanda às seis da tarde, de telefone na mão, falando em voz baixa. Via Eduarda surgir pouco depois, sacudindo toalhas ou verificando se alguém permanecia na rua sem justificação. E via Carlos afastar-se dela com a agilidade culpada de quem ainda não cometeu exactamente um crime, embora já tenha escolhido o álibi. O senhor Ega não conhecia Raquel, nem precisava, tinha vivido o suficiente para saber que um homem não sorri daquela maneira por causa de uma reunião sobre contas trimestrais. A lua-de-mel, que deveria acontecer em Itália, acabou por decorrer no apartamento. Eduarda chamou-lhe uma experiência de intimidade forçada; Carlos chamou-lhe confinamento; Raquel, numa mensagem enviada às duas da manhã, chamou-lhe oportunidade. O caldo estava entornado, embora ainda ninguém tivesse levantado a tampa da panela. 

Quando Eduarda finalmente descobriu, não foi através de uma mensagem indiscreta nem de uma conversa escutada atrás da porta, foi através do pão. Carlos, que nunca distinguira fermento de farinha, apareceu uma manhã na cozinha disposto a preparar uma massa-mãe. Disse que sempre se interessara por processos de fermentação e Eduarda olhou para ele em silêncio. Depois olhou para a bancada, para a farinha espalhada e para o tutorial aberto no telemóvel. No canto do ecrã surgia uma mensagem de Raquel.

«Não te esqueças de lhe dar o nome.»

Eduarda compreendeu imediatamente que nenhuma mulher escreve uma frase daquelas a respeito de uma massa sem que haja outros ingredientes envolvidos. O casamento foi cancelado nessa tarde. Carlos tentou explicar que nada acontecera. Era verdade, pelo menos segundo os regulamentos sanitários, não se tinham tocado, beijado ou encontrado fora de um ecrã. A traição cumprira escrupulosamente todas as regras de distanciamento. Eduarda ouviu-o sem interromper, depois retirou o vestido do armário, abriu a janela e ficou a olhar para a rua vazia. Durante meses temera que as máscaras estragassem as fotografias do casamento, só então percebeu que as máscaras já lá estavam antes da pandemia.

O senhor Ega, do outro lado, viu Carlos sair de casa com duas malas, um computador e um frasco de massa-mãe ao colo. Não soube se ia viver com Raquel, regressar aos pais ou apenas procurar um hotel aberto, também não lhe pareceu importante. Na manhã seguinte, Eduarda anulou as reservas, devolveu os presentes e publicou uma fotografia antiga em que aparecia sozinha numa praia. Escreveu por baixo que alguns recomeços chegam disfarçados de catástrofe. Recebeu trezentos e doze gostos. Carlos recebeu uma mensagem de Raquel a perguntar quando poderiam finalmente encontrar-se. Olhou para o pão que não crescera e demorou algum tempo a responder. A proximidade, descobriu, também dependia da distância.

Parece que é este o FIM, afinal. 

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Paleta de som - The Blower's Daughter, Damien Rice

Imagem - imagem: SARS-CoV-2 em CAD

Concluído enquanto termino um trabalho ciclópico de mapeamento cultural

Notas: 1) Ambos os textos foram compostos em 2020
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20210905

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BAIRRO ZINE 0.8
carta desd'o bairro

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(1) APONTAR UM DIÁRIO - formato pensado
(2) TECTOS - andamento suave


(1) APONTAR UM DIÁRIO - formato pensado

A minha relação com a escrita em diários sempre foi intermitente. Tive-os a tempos soltos, ora por uns dias, ora por algumas semanas. Fosse por um par ou por algumas dezenas de dias, os meus diários eram sempre experiências fugazes. Nunca me agarrava por muito tempo. Sentia-me demasiado condicionado a escrever, exercício que sempre me fluiu melhor quando solto de quaisquer amarras. Sei que essas intermitências a escrever foram mais frequentes quando tinha tempo disponível para testar outras vias de escrita. Não necessariamente daquelas vias que eu consideraria produtivas. Ou seja, para publicações, possíveis livros, textos com algum veículo - económico, temático, utilitário - em vista. Um diário é uma deambulação sem amarras, livre, sem quaisquer regras literárias ou de alcance final, de umbiguismo e desgarrada, soltando a verve descerebradas. Quem o lerá que não o próprio? Existe algum escritor que tenha começado a compor o seu diário sem ser reconhecido como escritor para, depois de já o ser, esse diário passar só então a fazer sentido para investigadores e apreciadores da sua obra? Terá algum escritor resistido a destruir um diário seu antes do reconhecimento da sua obra, como pedira Kafka? 

Adolfo Correia da Rocha, o Miguel Torga, começou a lançar volumes do seu diário quando já era conhecido, o Diário I em 1941, o II em 1943, o III em 1946; um volume a sensivelmente cada 3 anos, até ao VIII, em 1959. Já em 1999, foram publicados os volumes IX a XVI, que cobrem os anos 1964 a 1993. Este exercício era o seu lado B. Mas que interesse para o comum leitor, se não apenas para o interesse académico. Certamente não para deleite literário. E qual o interesse para o escritor? Um ginasticar pelos meandros da escrita criativa, como bálsamo necessário para a expulsão das palavras que se vão acumulando e como método de disciplina e afinação de escrita. Peguei num desse volumes de Torga e li ao acaso - porque se há objecto literário a que não há a necessidade de fio condutor, é no diário - e vi expressos pensamentos de médico, a tergiversar sobre este ou aquele paciente, esta ou aquela preocupação mundana, afazeres do quotidiano pouco substanciais. Comuns. Enfadonhos? Porquê escrever então um diário? Porquê então a escrita de diários (que não diarismo)?

(2) TECTOS - andamento suave

O tecto simboliza e simbolizará sempre um limite palpável. Não se diz o tecto é o limite, diz-se o céu é o limite. Mas é o tecto que é visível e alcançável, o céu é invisível e inalcançável. A qual é que devemos almejar? Haverá algum equilíbrio entre um e o outro? Podemos talvez considerar os dois como possibilidade, o tecto como um degrau para o infinito, o infinito como o objectivo último, a alcançar após o ultrapassar o primeiro. A coisa complica quando se habita no piso térreo de um edifício em que o número de tectos se multiplica consoante o número de andares, fazendo aumentar o número de objectivos a alcançar e a ultrapassar e tornando o céu ainda mais distante para o observador. E da óptica deste observador, isto torna-se uma metáfora da ascensão social. Foi a esta metáfora - sucessão de camadas a transpor para sobrevir a uma condição de classe - que Jacques Lob e Jean-Marc Rochette recorreram ao criar Le Transperceneige (1), recriado depois por Bong Joon-ho no seu Snowpiercer (2). Luta de classe pura e dura - e sangrenta, comme il faut na revolução. Onde é que isto já vai, camaradas. Unimo-nos. 

O tecto é também - para quem o possui, claro - o visível firmamento ao adormecer e ao despertar, corporizando tanto uma barreira ao firmamento autêntico, a abóbada celeste, como também funciona como uma camada de protecção ao que seria uma exposição à inclemência do tempo e à intermitência das intempéries. O tecto é tanto o abrigo como a representação do abrigo - casa, protecção, conforto. Tecto, tectum. Não tétum.  E aqui importa explicar a feliz coincidência da proximidade entre arquitecto e tecto no português (3). Apesar dessa aparente vizinhança etimológica, ela não existe. Arquitecto vem do latim architectus a partir do grego arkhitéktōn (ἀρχιτέκτων), ἀρχι- (arkhi-, «chefe») +‎ τέκτων (téktōn, «construtor»). Tecto vem do latim tectum (cobertura), de tego (cubro), cognato com o grego antigo τέγος (tégos, «cobertura; qualquer divisão coberta de uma casa»).

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Paleta de som - Dilúvio, de Garota Não

Imagem - Um de uma série de desenhos a que chamei Lisbon Walker. 

Notas: 1) Editado pela Casterman, em 1982; 2) E também palpável no El Hoyo / A Plataforma, de Galder Gaztelu-Urrutia; 3) Caem os C mudos com o AO90, fica arquiteto e teto, eu escrevo com a grafia anterior.
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20210805

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BAIRRO ZINE 0.7
carta desd'o bairro
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(1) FEIRA DA LADRA - livro de viagens de dentro de mim
(2) O JOGO E AS GENTES - formato pensado























(1) FEIRA DA LADRA - livro de viagens de dentro de mim

De todas as hipóteses para o étimo do mercado franco de Lisboa - para a Feira da Ladra - agarro-me mais aquela que me parece mais certeira: de Lázaro, ladro, lazarento, miserável - pois é da miserabilidade e da necessidade humana em recorrer a todos os possíveis expedientes de que estas feiras sobrevivem. Perco-me muita vezes por aí, tentando descortinar histórias e imaginando-me a vender algo também - só me faltam objectos, preciso de coisas de que possa dispor.

O sorriso do sinaleiro do Príncipe Real recebe-me agora todas as manhãs em que sigo para o trabalho de carro - somos conhecidos de passagem dos dias e sigo pensando que mesmo que o cumprimente e receba um assentimento cúmplice na volta, não lhe conheço a voz de todo - gargalho imaginando-a feminina, aguda.

Barcelona recebeu-me mais uma vez este mês e refrescou-me de amigos novamente o estar de tarde na Ciutadella e o deambular tonto por aquelas ruas mágicas, Miró, Tàpies, Barceló, Fura, Calder, Dali, Coderch, Miralles, Picasso.. ). Voltei ainda a Coimbra aonde não ia já desde Fevereiro, revi tanto que não parava de sorrir em gosto de forma - @corvo foi belíssimo, obrigado, gostei do detalhe do pedaço meu escrito ainda na parede. E em encontro de amigos ouvindo James em Queima de reencontro - eu e os meus irmãos repetindo dez anos depois o mesmo concerto que foi o nosso primeiro festival no Porto! É possível permanecer intocado com tanto toque de bom em simultâneo?

Faço também um requiem por uma amizade mais do que isso e festejo os miradouros de Lisboa - sol, gentes e livros e celebro três coisas de bom, dois projectos novos que estão em ebulição e que desvendarei prontamente mais à frente : cs e spotted by locals lisbon e a publicação de um trabalho meu num catálogo de exposição : vitrakem by pavicer.

(2) O JOGO E AS GENTES - formato pensado

Já não me recordo totalmente como me surgiu este, vão-se tornando cada vez mais difusas com o avanço dos dias e das horas determinadas revelações.

Voltou-me a ideia quando seguia na composição maior da linha azul do metro de LX por uma destas manhãs habituais de ida para o trabalho - olhava o fundo das três carruagens amarradas entre si sibilando pelo corredor subterrâneo, reparando como esse me desaparecia da vista nas curvas mais apertadas do percurso. O jogo e as gentes e a visão das coisas - recusamos o que não vemos ou não compreendemos para seguir mais confortáveis, agilizamo-nos para resumir imediatamente o que nos interessa e tentamos acarinhar quem nos é importante. Quem é jogador ocasional e se esquece de apostar (falo de um apostador esporádico, que os regulares jamais se esquecem) insiste em ver o resultado, sofrendo se a sua aposta não lançada é a vencedora ou faz por esquecer e nem se preocupa?

Não é esta uma maneira rápida de nos resumirmos e a vida assim também - somatório de perdas e conquistas, apostas feitas continuamente, outras esquecidas e algumas ganhas - em Eterno Retorno, em constante intermitência?

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Paleta de som - Wildfires, de Sault

Imagem -  Fotografia de expositor no Campo de Santa Clara, Feira da Ladra.

Notas: (1) flea market, swap meet, marché aux puces, feira da ladra, bazaar, mercadillo; as que conheço são as de encants vells em Barcelona, el rastro em Madrid, portobello road em Londres e a da ladra em Lisboa (no entretanto passei pela vandoma, Porto; feira sem regras, Coimbra; place du jeu de balle, Bruxelas; o flohmarkt/naschmarkt em Viena; zandfeesten em Brugge e outros em Gent, Hamme e Berlim); (2) linha azul, da gaivota.

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20200705

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BAIRRO ZINE 0.6
carta desd'o bairro

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(1) O EXCESSO DE VIAGEM - ensaio a uma inveja
(2) AMORCÃO - teórico amorizações
















(1) O EXCESSO DE VIAGEM - ensaio a uma inveja

Ah como odeio quem viaja constantemente, quem por aí anda percorrendo viajando o mundo, quem se move locomove por aí, como odeio quem me responde dizendo Paris - Moscovo - Fez fiz. Como utilizo eu aquela interjeição? Como me inflamo por tão pouco e depois o escrevo como apropriado? Se odeio quem viaja não odeio verdadeiramente quem o faz - detesto sim naquilo que se transforma. Não odeio a pessoa, invejo o viajante nela. E invejo sim, invejo - porque o quero também, porque me quero ver viajante também, concorrer em não sei quantos países por esse mundo e voltar dizer contar mostrar também a outros. Isto vi e percorri, construindo então enquanto o digo irónico um sorrisinho detestável de experiente e conhecedor caixeiro.

Da próxima vez que comigo partilharem uma viagem - e há sempre uma próxima, sempre há, milhares de viajantes nascem todos os dias e muitos a mim desaguam contando história de mil e uma noites - direi perfazendo uma mentira, já o fiz, já o vi, já conheço, já lá estive, é bonito sim, é interessante, desgostei daquilo, fui maltratado ali, inventando nomes de lugares e de ruas que serão impossíveis de verificar. Afinal, li o Cidades Invisíveis, por dá cá aquela palha é facílimo inventar cidades e história tirando-as do bolso, já construídas e tecidas em credibilidade.

(2) AMORCÃO - teórico amorizações

Diz-me tu se o amor não é por vezes amorcão? Se algo há que termina - naturalmente e por mais que se diga que tudo tenha terminado em bem, nunca isso é verdade. Pois se algo termina e o termo aqui é bem explícito - terminar - é porque é em estado de mal (estar, fé, dizer, etc...). Se acabasse em bem não acabaria - continuava. Pois se termina é porque mal estava e se bem estivesse, terminaria apenas na cama. Ponto.

A consciência de que o amor é cão - amorcão, aquilo a que chamo a uma forma de estar e de comportar e reagir após relações desavindas (aproximando-me ainda mais ao conceito digo que amorcão é esse estado de suspensão e afastamento dos outros - ou de agressividade sobre os outros, isto depende de quem se trata - em que nada ou muito pouco parece realmente interessar além do sentimento de desfasamento que temos sobre o/a tal com quem estávamos) - surge sempre após período de insatisfação, ou seja, imediatamente antes de terminar seja o que for que se tenha iniciado. E se insatisfeito se estava é porque - e ajudem-me aqui - algo estaria correndo mal! Bingo! E perdão então se me socorro do gerúndio para me debruçar sobre isto, mas é que é tão delicioso quanto é explícito.

Vejamos um teste sobre as relações humanas. Vamos estando - revelador de que terminarão breve ou que se aguentam em relação mais ou menos atrozmente. O gerúndio é a melhor forma verbal para justificar aquilo que é passageiro ou efémero! É perfeito não o é?

E desculpem lá outra vez - ando a ler novamente Dostoievski e isso reflecte-se em deambulações de estilo!

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Paleta de som - The Avalanches, «We Will Always Love You»

Imagem - Fotografia dentro de avião ao regressar depois de uma semana de férias em São Miguel, Açores, Maio de 2023.

Composto enquanto saltitava entre projectos de licenciamento por tele-trabalho, Abril de 2020.

Notas: (1) flea market, swap meet, marché aux puces, feira da ladra, bazaar, mercadillo; as que conheço são as de encants vells em Barcelona, el rastro em Madrid, portobello road em Londres e a da ladra em Lisboa (no entretanto passei pela vandoma, Porto; feira sem regras, Coimbra; place du jeu de balle, Bruxelas; o flohmarkt/naschmarkt em Viena; zandfeesten em Brugge e outros em Gent, Hamme e Berlim); (2) linha azul, da gaivota.

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20200620

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BAIRRO ZINE 0.5
carta desd'o bairro
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(1) ESTEOUTRO BAIRRO - triangulação espontânea
(2) AMOR EM TEMPOS DE PANDEMIA - teórico amorizações







(1) ESTEOUTRO BAIRRO - triangulação espontânea

Escrevo umas linhas mais, porque é de conforto e de prazer que me faz a escrita. Parece certeira, cresce automática, flui naturalmente, assenta por aqui. Mesmo que sem qualquer motivo ou objectivo, escrever faz-me alma, arrebita, faz-me fogaça no ventre e na cara, conforta-me. Faz-me flow (1). Faço aqui uma breve pausa e compro o livro, finalmente. Já está. Chegará numa semana, mais ou menos vírus a entaramelar os percursos e a distribuição postal. Escrever é uma necessidade fisiológica, tão necessária que a sua ausência provoca desconforto, a sarar com pelo menos uma ou duas linhas - nada de haiku - a compor uns pensamentos. Escrevo agora e retomo-o, este bairro zine que foi sempre irregular, num novo bairro, numa nova cidade, numa tal de «nova normalidade». Alta (antes, o original do primeiro Bairro Zine, se bem me recordo, era Bairro Alto, daí também o nome escolhido); Coimbra (era Lisboa - LX) e a «nova normalidade», daquelas expressões certeiras e acertadas de que se não conhece a autoria e que bem definem um determinado modus vivendi, paradigmas, que é a situação pandémica que cobriu o mundo de um manto diáfano de incerteza e que ainda nos devassa.

(2) AMOR EM TEMPOS DE PANDEMIA - teórico amorizações

Em tempo de pandemia, em que os pensamentos vivem acossados entre quatro paredes e em que se limitaram os horizontes do eu, as relações e os sentimentos sobrevivem num confinamento difícil. Mesmo para aqueles que não podem prescindir de trabalhar longe de casa, em que os confinamentos são menos geográficos, mas também mentais. Entre quatro paredes segue o amor cão ou o amor longe. Quantos viram cortada a sua relação pela imposição de afastamentos ou então quantos se viram na impossibilidade da corte, quando a hipótese era ainda uma semente. Aos arredados do relacionamento, acrescem os exaustos do relacionamento, aqueles para quem a convivência era difícil e agora a ela se viram obrigados. Ou ainda aqueles que vieram a descobrir algo que nem imaginavam, que a sua relação estava por um fio e as suas quatro assoalhadas só o precipitaram. Há muitas e múltiplas vivências que se viram forçadas, quase do dia para a noite, a reinventar-se e reconsiderar-se. A interacção humana é um bem precioso e também um gesto singular. Certamente que para cada duas pessoas que se aproximou, haverá certamente duas que se afastaram e ainda outras duas que se viram irremediavelmente acossadas, por falta de via de fuga, perante qualquer violência que já vinha de antes. Pandemia não é uma panaceia. Isto dará certamente um texto de teatro ou um livro, algo. (2)

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Paleta de som - Young Fathers : In My View + Angelo Badalamenti : Fire Walk With Me 
Imagem - Kinetic Drawings, Bairro Alto, Lisboa, Setembro de 2011

Composto enquanto saltitava na composição de outros dois textos durante tempos de pandemia, confinado em casa na Alta de Coimbra, Abril de 2020

Notas: 1) A partir da noção de flow, the psychology of optimal experience, postulada por Mihaly Csikszentmihalyi; 2) Imagino algo na linha de Sarah Kane, ver Pinter, também.
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20200501

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CRÓNICA CÓNICA 1.0
compras nos supermercados em tempos de covid19



















É tudo uma questão de distâncias. Ao sair de casa, neste tempo de pandemia, é mais importante manter as distâncias do que insistir nas aparências. Até porque o menos aparente é mesmo qualquer normalidade. Circulamos pela ruas e pelas avenidas como num bailado, como se descrevêssemos o acasalamento ritualizado de um par de pássaros que se vão medindo e entreolhando à distância, em crescentes voluptuosidades, amontoando piares e seduções a roçar o insuportavel. Piu, piu, dois metros, um metro, metro e meio. Mantém, mantém-te. Equidistantes na corte. Uma nova geometria para circular nas cidades inteiras. 

Como é que um pássaro mede a distância deste para aquele beirado, enquanto saltita entre um e o outro, peripatético; como é que um felino se apercebe da distância de si até à presa desejada, para melhor calibrar o salto; como é que mantemos a distância constante entre nós e o outro ao perambular assim pela rua? Das coisas mais complicadas, nesta orquestração espacial, é mesmo o fazer compras no supermercado. Não é tanto pelas filas que se formam para entrar no super ou no hiper, processo em que me vi a viajar um par de décadas até à adolescência, em que a filtragem era por número e equilíbrio de género à entrada da discoteca. O complicado é a manutenção das distâncias dentro de um espaço de coxias rasgadas a régua e esquadro que nos habituáramos a percorrer, ziguezagueando despreocupadamente entre expositores, escolhendo e analisando produtos e marcas com as mãos. 

O aparato do toque tornou-se complexo, cada gesto e cada escolha uma luta de ponderações. Levar o fruto e o tubérculo assim que neles se toca, depois da irremediável escolha pelo olhar, é um novo hábito. Já não há regras dos 15 segundos, se toca, é levar. Também não se pode abdicar de rodar as embalagens para estudar os ingredientes, mas é fazê-lo protegido. Tocar nos sacos, nos carros, no pão, o transporte dos artigos, o processo de pagamento e a recolha do talão e outros sei-lás, dezenas de pormenores que nos passavam ao lado, por irrelevantes e automáticos, têm agora que ser reconsiderados. O afã consumista reduzido a um lufa-lufa de preocupações nos seus detalhes. Já todos o dizem, o Demónio ocupou o lugar de Deus nos detalhes. 

Aparece então alguém ao fundo do corredor caminhando em sentido contrário, um pequeno pânico, imaginamos logo um duelo pelo espaço, como numa cidade do Faroeste. Duas opções se apresentam: bater em retirada ou passar por ele de lado, em movimentos de caranguejo. De todas as maneiras fica o sabor da derrota. Viral. E todo o equipamento: viseiras, luvas, máscaras, desinfectante, álcool gel, álcool. Circulamos com segundas peles para uma dose-extra de protecção. Até um simples encontro de olhares é uma quase violência, que afastamos rapidamente, chocalhandos desculpas internas. Esta é uma nova ficção-realidade, uma culpa colectiva que não sabemos explicar ou expiar. A saída por mantimentos abre inúmeras possibilidades de entradas ao vírus, daí que se instalem ansiedades. Para uns quantos portugueses até será das poucas idas ao exterior, assume-se então como passeio higiénico. Há então que ser higienizado, também mentalmente. Temos andado a conter o mercado dos afectos e o aparato do toque. Não apenas na prática e nos hábitos, na nossa cabeça também. Até que se terminem os enlatados e vaguem as estantes das despensas e tenha que se empreender umas próximas compras numa pandemia perto de si.

imagem: SARS-CoV-2 em CAD

20170426

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DIZBOA

Lisbogami

Dedifestos (não manifestos) que me trincam o cérebro assim ao calhas. 
Dei-lhes o nome de Lisbogamis:

#1 Vozes de recibo verde não chegam ao céu
#2 A ocasião faz o político
#3 O desempregado ladra, o governo passa
#4 A cada sentença é calar a boca
#5 A caravana passa a não ser que o cão morda
#6 Mais vale deixar os pássaros voar do que ter um qualquer na mão
#7 É não olhar para o dente do cavalo, ainda é dado a coices
#8 A culpa morreu viúva
#9 A fome só é o melhor tempero se não sobejar sal no despenseiro
#10 A justiça tarda, ainda prescreve
#11 Filho és pai não serás
#12 Bom filho em casa entorna
#13 Quem tem telhados de policarbonato, pode atirar pedras ao do vizinho
#14 Ácido em pedra dura, é que fura
#15 Águas movem sempre os moinhos
#16 Quem o feio ama, é porque é zarolho
#17 Homem grande, murro enorme
#18 A permanente da vizinha é sempre melhor que a minha
#19 Cada bacano no seu galho
#20 Para lá do Marão, ainda manda o Governo

20160915

(=`*````

DESCOBRI-ME UMA PEDRA

e muitas mais além
então desenhei-as

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Desenho - feito na Casa do Bairro Alto, meados de 2010

20160820

*ª^ªª^º

ORTE

Não é Horta, é Orte mesmo, ali para quem vem de Roma e segue até Orvieto. Há que parar e desfrutar.

20160320

*`*``*`*`:_:__________:_

PHYSALIS 2.0

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Desenho - feito em Águeda, meados de 2013

20160120

ª^*^^:_;::_:_

PHYSALIS

Sem poemas, não

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Desenho - feito em Águeda, meados de 2013

20151205

23######$$%´´´´´´

PIRÂMIDE ETRUSCA

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Desenho - feito em Bomarzo, no meio das moitas, meados de 2015

20151120

!""#"#####

ME MOLA


Desenho - feito na Casa da Penha de França, meados de 2012

20151019

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NATUREZA COLHIDA

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Desenho - feito em Orte, Lácio, meados de 2015

20151007

~~~~~´º

VIA DELLA ROCCA

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Desenho - feito à vista em Orte, Lácio, meados de 2015

20150220

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O VASO















































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Desenho - feito em Palazzolo Acreide,  Sicília, meados de 2015

20150110

^`*`**`^ªº

NANAS BA

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Desenho - feito por Águeda, meados de 2012