BAIRRO ZINE 0.9
(2) SIGNO COVIDIANO - conto
Eduarda, entretanto, procurava quintas com espaços exteriores e empresas capazes de fornecer máscaras personalizadas com as iniciais dos noivos, desenhara já três modelos. Um deles tinha pequenas alianças douradas junto às orelhas. Não reparou de imediato na mudança, reparou apenas que Carlos tomava banho antes das reuniões virtuais e começara a usar perfume para trabalhar a dois metros da cama. Quando lhe perguntou a razão, respondeu que precisava de conservar rotinas. Eduarda, que acreditava profundamente nas rotinas desde que fossem organizadas por ela, considerou a explicação razoável.
Quem percebeu tudo foi o vizinho da frente, o senhor Ega, reformado, viúvo e entregue à observação das janelas alheias desde que as suas deixaram de lhe oferecer novidades. Via Carlos aparecer diariamente à varanda às seis da tarde, de telefone na mão, falando em voz baixa. Via Eduarda surgir pouco depois, sacudindo toalhas ou verificando se alguém permanecia na rua sem justificação. E via Carlos afastar-se dela com a agilidade culpada de quem ainda não cometeu exactamente um crime, embora já tenha escolhido o álibi. O senhor Ega não conhecia Raquel, nem precisava, tinha vivido o suficiente para saber que um homem não sorri daquela maneira por causa de uma reunião sobre contas trimestrais. A lua-de-mel, que deveria acontecer em Itália, acabou por decorrer no apartamento. Eduarda chamou-lhe uma experiência de intimidade forçada; Carlos chamou-lhe confinamento; Raquel, numa mensagem enviada às duas da manhã, chamou-lhe oportunidade. O caldo estava entornado, embora ainda ninguém tivesse levantado a tampa da panela.
Quando Eduarda finalmente descobriu, não foi através de uma mensagem indiscreta nem de uma conversa escutada atrás da porta, foi através do pão. Carlos, que nunca distinguira fermento de farinha, apareceu uma manhã na cozinha disposto a preparar uma massa-mãe. Disse que sempre se interessara por processos de fermentação e Eduarda olhou para ele em silêncio. Depois olhou para a bancada, para a farinha espalhada e para o tutorial aberto no telemóvel. No canto do ecrã surgia uma mensagem de Raquel.
«Não te esqueças de lhe dar o nome.»
Eduarda compreendeu imediatamente que nenhuma mulher escreve uma frase daquelas a respeito de uma massa sem que haja outros ingredientes envolvidos. O casamento foi cancelado nessa tarde. Carlos tentou explicar que nada acontecera. Era verdade, pelo menos segundo os regulamentos sanitários, não se tinham tocado, beijado ou encontrado fora de um ecrã. A traição cumprira escrupulosamente todas as regras de distanciamento. Eduarda ouviu-o sem interromper, depois retirou o vestido do armário, abriu a janela e ficou a olhar para a rua vazia. Durante meses temera que as máscaras estragassem as fotografias do casamento, só então percebeu que as máscaras já lá estavam antes da pandemia.
O senhor Ega, do outro lado, viu Carlos sair de casa com duas malas, um computador e um frasco de massa-mãe ao colo. Não soube se ia viver com Raquel, regressar aos pais ou apenas procurar um hotel aberto, também não lhe pareceu importante. Na manhã seguinte, Eduarda anulou as reservas, devolveu os presentes e publicou uma fotografia antiga em que aparecia sozinha numa praia. Escreveu por baixo que alguns recomeços chegam disfarçados de catástrofe. Recebeu trezentos e doze gostos. Carlos recebeu uma mensagem de Raquel a perguntar quando poderiam finalmente encontrar-se. Olhou para o pão que não crescera e demorou algum tempo a responder. A proximidade, descobriu, também dependia da distância.
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