20210905

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BAIRRO ZINE 0.8
carta desd'o bairro

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(1) APONTAR UM DIÁRIO - formato pensado
(2) TECTOS - andamento suave


(1) APONTAR UM DIÁRIO - formato pensado

A minha relação com a escrita em diários sempre foi intermitente. Tive-os a tempos soltos, ora por uns dias, ora por algumas semanas. Fosse por um par ou por algumas dezenas de dias, os meus diários eram sempre experiências fugazes. Nunca me agarrava por muito tempo. Sentia-me demasiado condicionado a escrever, exercício que sempre me fluiu melhor quando solto de quaisquer amarras. Sei que essas intermitências a escrever foram mais frequentes quando tinha tempo disponível para testar outras vias de escrita. Não necessariamente daquelas vias que eu consideraria produtivas. Ou seja, para publicações, possíveis livros, textos com algum veículo - económico, temático, utilitário - em vista. Um diário é uma deambulação sem amarras, livre, sem quaisquer regras literárias ou de alcance final, de umbiguismo e desgarrada, soltando a verve descerebradas. Quem o lerá que não o próprio? Existe algum escritor que tenha começado a compor o seu diário sem ser reconhecido como escritor para, depois de já o ser, esse diário passar só então a fazer sentido para investigadores e apreciadores da sua obra? Terá algum escritor resistido a destruir um diário seu antes do reconhecimento da sua obra, como pedira Kafka? 

Adolfo Correia da Rocha, o Miguel Torga, começou a lançar volumes do seu diário quando já era conhecido, o Diário I em 1941, o II em 1943, o III em 1946; um volume a sensivelmente cada 3 anos, até ao VIII, em 1959. Já em 1999, foram publicados os volumes IX a XVI, que cobrem os anos 1964 a 1993. Este exercício era o seu lado B. Mas que interesse para o comum leitor, se não apenas para o interesse académico. Certamente não para deleite literário. E qual o interesse para o escritor? Um ginasticar pelos meandros da escrita criativa, como bálsamo necessário para a expulsão das palavras que se vão acumulando e como método de disciplina e afinação de escrita. Peguei num desse volumes de Torga e li ao acaso - porque se há objecto literário a que não há a necessidade de fio condutor, é no diário - e vi expressos pensamentos de médico, a tergiversar sobre este ou aquele paciente, esta ou aquela preocupação mundana, afazeres do quotidiano pouco substanciais. Comuns. Enfadonhos? Porquê escrever então um diário? Porquê então a escrita de diários (que não diarismo)?

(2) TECTOS - andamento suave

O tecto simboliza e simbolizará sempre um limite palpável. Não se diz o tecto é o limite, diz-se o céu é o limite. Mas é o tecto que é visível e alcançável, o céu é invisível e inalcançável. A qual é que devemos almejar? Haverá algum equilíbrio entre um e o outro? Podemos talvez considerar os dois como possibilidade, o tecto como um degrau para o infinito, o infinito como o objectivo último, a alcançar após o ultrapassar o primeiro. A coisa complica quando se habita no piso térreo de um edifício em que o número de tectos se multiplica consoante o número de andares, fazendo aumentar o número de objectivos a alcançar e a ultrapassar e tornando o céu ainda mais distante para o observador. E da óptica deste observador, isto torna-se uma metáfora da ascensão social. Foi a esta metáfora - sucessão de camadas a transpor para sobrevir a uma condição de classe - que Jacques Lob e Jean-Marc Rochette recorreram ao criar Le Transperceneige (1), recriado depois por Bong Joon-ho no seu Snowpiercer (2). Luta de classe pura e dura - e sangrenta, comme il faut na revolução. Onde é que isto já vai, camaradas. Unimo-nos. 

O tecto é também - para quem o possui, claro - o visível firmamento ao adormecer e ao despertar, corporizando tanto uma barreira ao firmamento autêntico, a abóbada celeste, como também funciona como uma camada de protecção ao que seria uma exposição à inclemência do tempo e à intermitência das intempéries. O tecto é tanto o abrigo como a representação do abrigo - casa, protecção, conforto. Tecto, tectum. Não tétum.  E aqui importa explicar a feliz coincidência da proximidade entre arquitecto e tecto no português (3). Apesar dessa aparente vizinhança etimológica, ela não existe. Arquitecto vem do latim architectus a partir do grego arkhitéktōn (ἀρχιτέκτων), ἀρχι- (arkhi-, «chefe») +‎ τέκτων (téktōn, «construtor»). Tecto vem do latim tectum (cobertura), de tego (cubro), cognato com o grego antigo τέγος (tégos, «cobertura; qualquer divisão coberta de uma casa»).

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Paleta de som - Dilúvio, de Garota Não

Imagem - Um de uma série de desenhos a que chamei Lisbon Walker. 

Notas: 1) Editado pela Casterman, em 1982; 2) E também palpável no El Hoyo / A Plataforma, de Galder Gaztelu-Urrutia; 3) Caem os C mudos com o AO90, fica arquiteto e teto, eu escrevo com a grafia anterior.
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Ler as anteriores : BAIRRO ZINE 0.1 | BAIRRO ZINE 0.2 | BAIRRO ZINE 0.3 | BAIRRO ZINE 0.4  | BAIRRO ZINE 0.5 | BAIRRO ZINE 0.6 | BAIRRO ZINE 0.7

20210805

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BAIRRO ZINE 0.7
carta desd'o bairro
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(1) FEIRA DA LADRA - livro de viagens de dentro de mim
(2) O JOGO E AS GENTES - formato pensado























(1) FEIRA DA LADRA - livro de viagens de dentro de mim

De todas as hipóteses para o étimo do mercado franco de Lisboa - para a Feira da Ladra - agarro-me mais aquela que me parece mais certeira: de Lázaro, ladro, lazarento, miserável - pois é da miserabilidade e da necessidade humana em recorrer a todos os possíveis expedientes de que estas feiras sobrevivem. Perco-me muita vezes por aí, tentando descortinar histórias e imaginando-me a vender algo também - só me faltam objectos, preciso de coisas de que possa dispor.

O sorriso do sinaleiro do Príncipe Real recebe-me agora todas as manhãs em que sigo para o trabalho de carro - somos conhecidos de passagem dos dias e sigo pensando que mesmo que o cumprimente e receba um assentimento cúmplice na volta, não lhe conheço a voz de todo - gargalho imaginando-a feminina, aguda.

Barcelona recebeu-me mais uma vez este mês e refrescou-me de amigos novamente o estar de tarde na Ciutadella e o deambular tonto por aquelas ruas mágicas, Miró, Tàpies, Barceló, Fura, Calder, Dali, Coderch, Miralles, Picasso.. ). Voltei ainda a Coimbra aonde não ia já desde Fevereiro, revi tanto que não parava de sorrir em gosto de forma - @corvo foi belíssimo, obrigado, gostei do detalhe do pedaço meu escrito ainda na parede. E em encontro de amigos ouvindo James em Queima de reencontro - eu e os meus irmãos repetindo dez anos depois o mesmo concerto que foi o nosso primeiro festival no Porto! É possível permanecer intocado com tanto toque de bom em simultâneo?

Faço também um requiem por uma amizade mais do que isso e festejo os miradouros de Lisboa - sol, gentes e livros e celebro três coisas de bom, dois projectos novos que estão em ebulição e que desvendarei prontamente mais à frente : cs e spotted by locals lisbon e a publicação de um trabalho meu num catálogo de exposição : vitrakem by pavicer.

(2) O JOGO E AS GENTES - formato pensado

Já não me recordo totalmente como me surgiu este, vão-se tornando cada vez mais difusas com o avanço dos dias e das horas determinadas revelações.

Voltou-me a ideia quando seguia na composição maior da linha azul do metro de LX por uma destas manhãs habituais de ida para o trabalho - olhava o fundo das três carruagens amarradas entre si sibilando pelo corredor subterrâneo, reparando como esse me desaparecia da vista nas curvas mais apertadas do percurso. O jogo e as gentes e a visão das coisas - recusamos o que não vemos ou não compreendemos para seguir mais confortáveis, agilizamo-nos para resumir imediatamente o que nos interessa e tentamos acarinhar quem nos é importante. Quem é jogador ocasional e se esquece de apostar (falo de um apostador esporádico, que os regulares jamais se esquecem) insiste em ver o resultado, sofrendo se a sua aposta não lançada é a vencedora ou faz por esquecer e nem se preocupa?

Não é esta uma maneira rápida de nos resumirmos e a vida assim também - somatório de perdas e conquistas, apostas feitas continuamente, outras esquecidas e algumas ganhas - em Eterno Retorno, em constante intermitência?

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Paleta de som - Wildfires, de Sault

Imagem -  Fotografia de expositor no Campo de Santa Clara, Feira da Ladra.

Notas: (1) flea market, swap meet, marché aux puces, feira da ladra, bazaar, mercadillo; as que conheço são as de encants vells em Barcelona, el rastro em Madrid, portobello road em Londres e a da ladra em Lisboa (no entretanto passei pela vandoma, Porto; feira sem regras, Coimbra; place du jeu de balle, Bruxelas; o flohmarkt/naschmarkt em Viena; zandfeesten em Brugge e outros em Gent, Hamme e Berlim); (2) linha azul, da gaivota.

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