A igreja estava toda iluminada. Ou não, para já ainda não, ela surgia assim apenas na fértil imaginação de Eduarda. Ela tinha-se ocupado nestes meses com a preparação do seu casamento com Carlos, apurando-o até ao mais ínfimo detalhe. Estava agendado para 13 de Junho, uma data auspiciosa para enlaces. Empenhou-se com minúcia, incensada, escolhendo desde a gramagem do papel dos convites a enviar por correio, até à procura do equilíbrio cromático dos arranjos florais para o templo onde trocariam os votos. Era um aprumo tal, nunca visto, que a levou até a eleger cuidadosamente o perfume para impregnar o papel dos convites. Um acentuado cheiro a cipreste atlântico, o que é uma forma mundividente de proclamar Cedro-do-Bussaco, formal nominal mais térrea, chata. Ou ainda a atenção ao escolher a sua roupa interior e a das suas damas de honor para aquela e para a última ocasião. Azul, algo emprestado, modas de fora, muitos frufrus. Tudo tão afinado quanto a cadência esperada de um metrónomo e a regularidade de um relógio suíço. Tudo afinava certo, com horas e ponto. O que faltava a estes planos, talhados até ao milímetro da certeza, era algum espaço para o improviso, pois nada fora deixado ao acaso, a um fortuito furtivo.
Eduarda nasceu para isto, sentia-o à flor da pele, na epiderme, crescera a sonhar com este momento. Nada podia parar a engrenagem que Eduarda tinha posto em funcionamento desde o primeiro momento em que se imaginou casada, com todos os tiques e atavios de quem se imagina de branco, de quem se finge virginal por uns momentos, a trepar até ao altar de braço em braço dado e a declamar depois aquela ladainha de desejos para a eternidade, vigiada de perto por uma batina semi-divina. Depois, em rápida sucessão, beijo, chuva de arroz, festa e dança, noite lunar, núpcias comprometidas e restante de vida a dois. A cadência estava programada com o acerto de um relógio suíço. Para o bem e para o mal, felizes para sempre.
Mas foi então, que vinda do nada e sem que algum oráculo enfim acertasse na sua aparição, chega a pandemia de 2020 para desacertar todos os planos de Carlos e de Eduarda, de Eduarda com Carlos. Todo o seu calendário, até então pormenorizado ao detalhe, desfez-se. Se quem casa quer casa, há que ainda somar-lhe que saúde é outro requisito de relevo. A virose apresentou um dilema a Eduarda. Como manter as aparências sem estragar os planos de casamento. Cancelar o casamento ou continuar com a cerimónia? Eduarda entrava em pânico horrorizada com a perspectiva das fotografias da boda repletas de máscaras, semblantes desbotados nas fotos, caras plastificadas na memória, expressões escondidas, uma cerimónia pontilhada de azuis cirúrgicos e aromas higienizado pelo ar. Não pode ser.
Passou, por isso, a adiar. Primeiro quinze dias, depois um mês, mais tarde até ao Verão, quando tudo isto certamente teria passado. A certeza de Eduarda acerca do fim da pandemia renovava-se todas as semanas, apesar de a pandemia não mostrar a mesma consideração. O vestido permaneceu pendurado no armário, protegido por uma capa branca que, à medida que os meses avançavam, adquiria o aspecto de um fantasma doméstico. Carlos, que nunca participara verdadeiramente na organização do casamento, recebeu os adiamentos com uma serenidade que Eduarda confundiu com maturidade. Na realidade, limitava-se a obedecer às autoridades sanitárias e à sua natural inclinação para deixar os acontecimentos decidirem por ele. Foram confinados juntos. A princípio, Eduarda tentou convencer-se de que aquele seria um ensaio para a vida conjugal. Organizou refeições temáticas, noites de cinema e pequenos-almoços demorados. Chamava à sala o restaurante, à varanda o jardim e ao corredor o passeio higiénico. Carlos aceitou tudo durante três dias, ao quarto, começou a fechar-se no escritório, o pequeno quarto adaptado a que chamava de escritório. Ao quinto, passou a almoçar diante do computador e, ao sexto, Eduarda ouviu-o rir sozinho. Era uma gargalhada breve, ligeira, quase juvenil., não se parecia com nenhuma das que ela conhecia.
A responsável chamava-se Raquel. Tinha sido colega de Carlos muitos anos antes e reaparecera numa reunião de trabalho por videoconferência. A pandemia aproximava quem estava longe e afastava quem partilhava o mesmo sofá. Goethe talvez reconhecesse nisso uma nova versão das afinidades electivas, versão contemporânea, por fibra. Os corpos permaneciam imóveis, encerrados nas suas casas, enquanto os afectos atravessavam ecrãs, paredes e fusos horários com uma facilidade que não era permitida às pessoas. Carlos começou por falar com Raquel acerca de trabalho, depois falaram da quarentena, em seguida passaram a falar de tudo aquilo que não diziam a ninguém. Ela vivia sozinha, fazia pão e tinha uma planta que parecia morrer todas as terças-feiras. Carlos achou graça à planta, Raquel achou graça a Carlos e, pouco depois, deixaram de precisar de assuntos.
Eduarda, entretanto, procurava quintas com espaços exteriores e empresas capazes de fornecer máscaras personalizadas com as iniciais dos noivos, desenhara já três modelos. Um deles tinha pequenas alianças douradas junto às orelhas. Não reparou de imediato na mudança, reparou apenas que Carlos tomava banho antes das reuniões virtuais e começara a usar perfume para trabalhar a dois metros da cama. Quando lhe perguntou a razão, respondeu que precisava de conservar rotinas. Eduarda, que acreditava profundamente nas rotinas desde que fossem organizadas por ela, considerou a explicação razoável.
Quem percebeu tudo foi o vizinho da frente, o senhor Ega, reformado, viúvo e entregue à observação das janelas alheias desde que as suas deixaram de lhe oferecer novidades. Via Carlos aparecer diariamente à varanda às seis da tarde, de telefone na mão, falando em voz baixa. Via Eduarda surgir pouco depois, sacudindo toalhas ou verificando se alguém permanecia na rua sem justificação. E via Carlos afastar-se dela com a agilidade culpada de quem ainda não cometeu exactamente um crime, embora já tenha escolhido o álibi. O senhor Ega não conhecia Raquel, nem precisava, tinha vivido o suficiente para saber que um homem não sorri daquela maneira por causa de uma reunião sobre contas trimestrais. A lua-de-mel, que deveria acontecer em Itália, acabou por decorrer no apartamento. Eduarda chamou-lhe uma experiência de intimidade forçada; Carlos chamou-lhe confinamento; Raquel, numa mensagem enviada às duas da manhã, chamou-lhe oportunidade. O caldo estava entornado, embora ainda ninguém tivesse levantado a tampa da panela.
Quando Eduarda finalmente descobriu, não foi através de uma mensagem indiscreta nem de uma conversa escutada atrás da porta, foi através do pão. Carlos, que nunca distinguira fermento de farinha, apareceu uma manhã na cozinha disposto a preparar uma massa-mãe. Disse que sempre se interessara por processos de fermentação e Eduarda olhou para ele em silêncio. Depois olhou para a bancada, para a farinha espalhada e para o tutorial aberto no telemóvel. No canto do ecrã surgia uma mensagem de Raquel.
«Não te esqueças de lhe dar o nome.»
Eduarda compreendeu imediatamente que nenhuma mulher escreve uma frase daquelas a respeito de uma massa sem que haja outros ingredientes envolvidos. O casamento foi cancelado nessa tarde. Carlos tentou explicar que nada acontecera. Era verdade, pelo menos segundo os regulamentos sanitários, não se tinham tocado, beijado ou encontrado fora de um ecrã. A traição cumprira escrupulosamente todas as regras de distanciamento. Eduarda ouviu-o sem interromper, depois retirou o vestido do armário, abriu a janela e ficou a olhar para a rua vazia. Durante meses temera que as máscaras estragassem as fotografias do casamento, só então percebeu que as máscaras já lá estavam antes da pandemia.
O senhor Ega, do outro lado, viu Carlos sair de casa com duas malas, um computador e um frasco de massa-mãe ao colo. Não soube se ia viver com Raquel, regressar aos pais ou apenas procurar um hotel aberto, também não lhe pareceu importante. Na manhã seguinte, Eduarda anulou as reservas, devolveu os presentes e publicou uma fotografia antiga em que aparecia sozinha numa praia. Escreveu por baixo que alguns recomeços chegam disfarçados de catástrofe. Recebeu trezentos e doze gostos. Carlos recebeu uma mensagem de Raquel a perguntar quando poderiam finalmente encontrar-se. Olhou para o pão que não crescera e demorou algum tempo a responder. A proximidade, descobriu, também dependia da distância.
Parece que é este o FIM, afinal.