20260605

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BAIRRO ZINE 1.0

carta desd'o bairro
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(1) SPLEEN - andamento suave
(2) EXPRESSÕES CHEIAS - articulação terminológica














(1) SPLEEN - andamento suave

O conceito de spleen apareceu-me numa crónica de Pacheco Pereira, há uns tempos, no Público. A palavra ficou separada do resto do texto. Spleen. Já não me lembro da frase onde estava, apenas do momento em que a leitura abrandou ao vê-la. SpleenNão era uma palavra nova, já a tinha encontrado em Baudelaire, em referências à poesia francesa, em livros que a deixavam no original por falta de tradução suficiente. Sabia que dizia respeito à melancolia, ao tédio, a uma forma de desânimo. Mas nunca me tinha detido nela.

Spleen significa, antes de tudo, baço. A palavra inglesa chegou ao francês no século XVIII e tem origem no grego splên. A ligação à melancolia vem da antiga teoria dos humores, segundo a qual o baço estaria associado à produção da bílis negra. É possível que a palavra conserve alguma coisa dessa origem. Não porque o baço intervenha na tristeza, mas porque o spleen parece acontecer num lugar do corpo que não sabemos indicar, não dói, não impede os movimentos. Levantamo-nos, tomamos banho, saímos de casa, a vida continua toda a cumprir os seus procedimentos. A tristeza costuma trazer consigo um acontecimento, como uma morte, uma separação, uma derrota, alguma coisa que se pode partilhar quando alguém questiona. O spleen não precisa de um motivo, entra num dia sem o interromper, sem bater, senta-se connosco no autocarro, espera enquanto atendemos uma chamada, acompanha uma conversa sem que a outra pessoa perceba.

Baudelaire não inventou a palavra, mas alterou o seu alcance. Em As Flores do Mal, deu o nome de «Spleen e Ideal» à primeira parte do livro e chamou spleen a vários poemas. Entrou depois no título de O Spleen de Paris. Passou a reunir o tédio (ennui), a solidão, o desacordo consigo próprio e a dificuldade de habitar o mundo. Paris participa nesse estado, não apenas cenário ou porque as cidades produzem solidão. A cidade muda, acelera, abre ruas, derruba casas, substitui rostos. O indivíduo permanece no meio dessa circulação sem conseguir acompanhá-la nem ficar de fora. O spleen nasce desta diferença de velocidade, não depende de ler Baudelaire, aparece numa crónica de jornal, entre assuntos políticos e factos da semana, sem perder o que transporta, pois o cansaço encontra novas tarefas. Spleen. Surge agora ao abrir uma sucessão de mensagens que exigem resposta, ao percorrer notícias cuja gravidade se dilui na notícia seguinte, ao entrar numa loja que ocupou o lugar de outra loja, sem nos lembrarmos do que ali havia antes. Não lhe chamo nostalgia, embora lhe toque.; também não é depressão, que pertence a outro campo e requer outro cuidado, é assim como uma quebra no acordo entre o dia e a vontade de o viver.

Spleen não explica, delimita. Foi talvez isso que me fez parar na crónica, não pedia que a traduzisse, modificou apenas o andamento da leitura. Continuei até ao fim, fechei o jornal e, durante algum tempo, não fiz nada. Spleen. Agora, o que é ennui?


(2) EXPRESSÕES CHEIAS - articulação terminológica

O melhor feito da língua alemã, para quem a observa de fora, como não nativo, é talvez a possibilidade de aproximar palavras até que passem a designar uma experiência inteira. Os termos compostos não descrevem apenas uma coisa, guardam acção, duração, por vezes teorias sobre a vida. E são também, como por vezes se diz de saudade, quase intraduzíveis.

Bildungsroman junta Bildung, formação, a Roman, romance. Costuma traduzir-se por romance de formação ou romance formativo, embora a expressão portuguesa diga menos. O inglês usa o coming of age, que acho bem mais feliz. Não é apenas o acompanhar uma personagem enquanto aprende, envelhece ou adquire consciência, é também o perceber de que modo uma pessoa se torna legível para si própria. Goethe escreveu Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister, Joyce escreveu Retrato do Artista Quando Jovem, Fielding escreveu Tom Jones. O que pode identificado como Bildungsroman na literatura portuguesa? A Selva, Os Maias, Retalhos da Vida de um Médico?  Nenhum deles parece caber por completo na definição e talvez seja essa a razão porque se continua a discutir se o Bildungsroman existe. 

Wanderjahr era o ano de viagem dos aprendizes antes de se fixarem num ofício (novamente o inglês a espreitar com o seu gap year ou walkabout, próximos da ideia). Era o tempo durante o qual o trabalho não tinha morada fixa e a deslocação fazia parte da aprendizagem. Era preciso sair para regressar capaz de fazer alguma coisa, assim como uma antecâmara antes de assentar, de sedimentar. A palavra passou depois a servir para qualquer período longo de viagem de reconhecimento e descoberta, embora permaneça nela essa ideia de que ninguém viaja sem alterar profissão, o corpo ou como medir os dias. 

Wanderlust designa o impulso de partir, caminhar ou viajar, o estar sedento de viagem, de itinerar, da translação (todo o corpo é, em potência, um sólido em revolução - moi dixit). Não é o gosto por férias nem a simples vontade de conhecer lugares, até porque pode partir de uma recusa. Esta sede de vaguear pode nascer quando a vida permanece demasiado tempo no mesmo ponto e começa a exigir um caminho, mesmo que sem destino, pede apenas o ir e o largar, de supetão. 

Weltanschauung significa visão do mundo. A palavra liga Welt, mundo, a anschauen, olhar. No entanto, ninguém abarca o mundo de uma só vez, num olhar único e amplo, cada visão é uma colagem feita de episódios, omissões, hábitos, notícias lidas, ruas atravessadas, pessoas com se interage e em quem se acredita. Assemblage. Uma Weltanschauung não é apenas uma filosofia pessoal, é também o conjunto de coisas que deixamos de questionar.

Zeitgeist é o espírito do tempo. A expressão foi associada a Hegel e passou a designar ideias, sentimentos e modos de agir que dominam uma determinada época, esta ou aquela, a época de que falamos e em que estamos. O termo pressupõe que o tempo possui uma coerência que quem nele vive raramente reconhece, dado que vivem dentro dele, repetem-no, compram-no, combatem-no. Talvez Weltanschauung permita melhor compreender o Zeitgeist, mas mesmo olhando de fora olhamos de dentro e, ao observar, observamo-nos a nós.

Estas palavras não são mais profundas por serem alemãs, a sua força vem da sua união conceptual: formação e romance, viagem e ano, mundo e olhar, tempo e espírito. Ao não escolherem uma palavra para cada elemento, obrigam-nos a permanecer juntos e talvez por isso tenham atravessado outras línguas quase sem tradução. Não vejo que seja porque lhes falte equivalente, em português também, mas é porque funcionam como expressão cheia que transporta a definição consigo. 

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Paleta de som - Max Richter, On The Nature of Daylight 

Imagem - Processo contínuo de desistência ao escrever na casa do Bairro Alto, 2009

Composto enquanto organizo tabelas de trabalho sobre um grande projecto a acontecer em 2027

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