20200501

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CRÓNICA CÓNICA 1.0
compras nos supermercados em tempos de covid19



















É tudo uma questão de distâncias. Ao sair de casa, neste tempo de pandemia, é mais importante manter as distâncias do que insistir nas aparências. Até porque o menos aparente é mesmo qualquer normalidade. Circulamos pela ruas e pelas avenidas como num bailado, como se descrevêssemos o acasalamento ritualizado de um par de pássaros que se vão medindo e entreolhando à distância, em crescentes voluptuosidades, amontoando piares e seduções a roçar o insuportavel. Piu, piu, dois metros, um metro, metro e meio. Mantém, mantém-te. Equidistantes na corte. Uma nova geometria para circular nas cidades inteiras. 

Como é que um pássaro mede a distância deste para aquele beirado, enquanto saltita entre um e o outro, peripatético; como é que um felino se apercebe da distância de si até à presa desejada, para melhor calibrar o salto; como é que mantemos a distância constante entre nós e o outro ao perambular assim pela rua? Das coisas mais complicadas, nesta orquestração espacial, é mesmo o fazer compras no supermercado. Não é tanto pelas filas que se formam para entrar no super ou no hiper, processo em que me vi a viajar um par de décadas até à adolescência, em que a filtragem era por número e equilíbrio de género à entrada da discoteca. O complicado é a manutenção das distâncias dentro de um espaço de coxias rasgadas a régua e esquadro que nos habituáramos a percorrer, ziguezagueando despreocupadamente entre expositores, escolhendo e analisando produtos e marcas com as mãos. 

O aparato do toque tornou-se complexo, cada gesto e cada escolha uma luta de ponderações. Levar o fruto e o tubérculo assim que neles se toca, depois da irremediável escolha pelo olhar, é um novo hábito. Já não há regras dos 15 segundos, se toca, é levar. Também não se pode abdicar de rodar as embalagens para estudar os ingredientes, mas é fazê-lo protegido. Tocar nos sacos, nos carros, no pão, o transporte dos artigos, o processo de pagamento e a recolha do talão e outros sei-lás, dezenas de pormenores que nos passavam ao lado, por irrelevantes e automáticos, têm agora que ser reconsiderados. O afã consumista reduzido a um lufa-lufa de preocupações nos seus detalhes. Já todos o dizem, o Demónio ocupou o lugar de Deus nos detalhes. 

Aparece então alguém ao fundo do corredor caminhando em sentido contrário, um pequeno pânico, imaginamos logo um duelo pelo espaço, como numa cidade do Faroeste. Duas opções se apresentam: bater em retirada ou passar por ele de lado, em movimentos de caranguejo. De todas as maneiras fica o sabor da derrota. Viral. E todo o equipamento: viseiras, luvas, máscaras, desinfectante, álcool gel, álcool. Circulamos com segundas peles para uma dose-extra de protecção. Até um simples encontro de olhares é uma quase violência, que afastamos rapidamente, chocalhandos desculpas internas. Esta é uma nova ficção-realidade, uma culpa colectiva que não sabemos explicar ou expiar. A saída por mantimentos abre inúmeras possibilidades de entradas ao vírus, daí que se instalem ansiedades. Para uns quantos portugueses até será das poucas idas ao exterior, assume-se então como passeio higiénico. Há então que ser higienizado, também mentalmente. Temos andado a conter o mercado dos afectos e o aparato do toque. Não apenas na prática e nos hábitos, na nossa cabeça também. Até que se terminem os enlatados e vaguem as estantes das despensas e tenha que se empreender umas próximas compras numa pandemia perto de si.

imagem: SARS-CoV-2 em CAD

20170426

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DIZBOA

Lisbogami

Dedifestos (não manifestos) que me trincam o cérebro assim ao calhas. 
Dei-lhes o nome de Lisbogamis:

#1 Vozes de recibo verde não chegam ao céu
#2 A ocasião faz o político
#3 O desempregado ladra, o governo passa
#4 A cada sentença é calar a boca
#5 A caravana passa a não ser que o cão morda
#6 Mais vale deixar os pássaros voar do que ter um qualquer na mão
#7 É não olhar para o dente do cavalo, ainda é dado a coices
#8 A culpa morreu viúva
#9 A fome só é o melhor tempero se não sobejar sal no despenseiro
#10 A justiça tarda, ainda prescreve
#11 Filho és pai não serás
#12 Bom filho em casa entorna
#13 Quem tem telhados de policarbonato, pode atirar pedras ao do vizinho
#14 Ácido em pedra dura, é que fura
#15 Águas movem sempre os moinhos
#16 Quem o feio ama, é porque é zarolho
#17 Homem grande, murro enorme
#18 A permanente da vizinha é sempre melhor que a minha
#19 Cada bacano no seu galho
#20 Para lá do Marão, ainda manda o Governo

20160915

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DESCOBRI-ME UMA PEDRA

e muitas mais além
então desenhei-as

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Desenho - feito na Casa do Bairro Alto, meados de 2010

20160820

*ª^ªª^º

ORTE

Não é Horta, é Orte mesmo, ali para quem vem de Roma e segue até Orvieto. Há que parar e desfrutar.

20160320

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PHYSALIS 2.0

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Desenho - feito em Águeda, meados de 2013

20160120

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PHYSALIS

Sem poemas, não

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Desenho - feito em Águeda, meados de 2013

20151205

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PIRÂMIDE ETRUSCA

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Desenho - feito em Bomarzo, no meio das moitas, meados de 2015

20151120

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ME MOLA


Desenho - feito na Casa da Penha de França, meados de 2012

20151019

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NATUREZA COLHIDA

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Desenho - feito em Orte, Lácio, meados de 2015

20151007

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VIA DELLA ROCCA

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Desenho - feito à vista em Orte, Lácio, meados de 2015

20150220

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O VASO















































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Desenho - feito em Palazzolo Acreide,  Sicília, meados de 2015

20150110

^`*`**`^ªº

NANAS BA

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Desenho - feito por Águeda, meados de 2012

20141120

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FICHI D'INDIA

Foto trazida da Sicília. Por cá, em Portugal, não é da Índia, é do Inferno. Geografias.

20140402

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A insustentável leveza dos meus bolsos.

Para todo aquele que visita Lisboa, regurgita-se, nas mais insondáveis línguas disponíveis na cartilha de Babel, mas sobretudo em inglês, o cuidado quanto ao 28. Coninhas!

Apetece-me desenhar uma colecção de carteiras fiasco, fiasco marca, para manobra diversão aos carteiristas. 

20130502

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CARMA POLÍCIA

As forças de segurança impõem um respeito que se deve a não sei o quê. Eu próprio, numa coisa que alguém referia como um adulto índigo, num artigo lixo, sempre me rebelei e desconfiei das chefias. Não só porque gosto de estar eu nessa posição, mas porque lido mal, talvez devido ao meu crescimento e infância, a quem manda. 

20130328

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Faça fé no seu café. 

O Mané do Café e outros artistas que o usam como riscante. Conversa sobre alguém que um dia comentou a magia de beber café - não me recordo quem, mas a verve, bem, incrível. Também quero desmistificar o mito do Nexpresso, essa água suja.

20130320

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SEI LÁ EU















































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Desenho - feito na Casa da Penha de França, meados de 2013

20121220

´+´+´+ººººººººººººººººººº

OLHA-ME NA MENINA

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Desenho - feito em Palazzolo Acreide, Sicília, meados de 2015

20120925

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TOMAR OU BEBER

Não que me agrade tomar de ponta toda uma cidade, nem me movo por isso. Mas, e o mas surge aqui em sincero desconsolo, 

Não é que me agrade tomar de ponta uma cidade, mas é um desconsolo como se desmancham algumas ideias que se guardam da infância. No caso específico, que sou de Coimbra e rondei todas as proximidades em domingos familiares, a eloquência de Tomar. Durante o hiato que foi o não regresso a Tomar, alimentei a ideia de uma cidade que permanecia firme e rica no seu esplendor histórico e, como dou razão e vazão à história, sempre me pareceu que o firmasse em magnificência até ao presente. 

Muito me enganei ao regressar. 

No Verão de 2012, passei um par de semanas em reconhecimento tomarense. E o que remontava a uma recordação respeituosa, amonta agora apenas a uma tristeza e a uma falta identificada. Em determinadas falhas, a saber:

1. No Convento de Cristo, falta um circuito capaz e um percurso museológico bem delineado, com brevetes e explicações para quem o percorre. Olhar para uma pedra é diferente de olhar para uma pedra com legenda a acompanhá-la. Percebe-se de onde vem a pedra, como chegou a pedra aos nossos dias, como tratam dela no quotidiano e também para vai a pedra. Estas pedras merecem muito mais.

2. Centro da cidade despovoado, falta mais vida e gente e negócios locais. Não o Disneyfiquem, dignifiquem. Cheguei de comboio e caminhei desde a estação - demorei-me num café daqueles à antiga, espaçoso, bem cheiroso, airoso, majestático, solene. Mas o centro já não é este, é outro, mudou-se a centralidade para o lado de lá do Nabão. Este já só é o centro histórico, o que é uma pena, porque a história não foi apenas escrita, vai-se escrevendo. E aqui há muitas histórias que merecem continuar a ser contadas.

3. A falta de respeito na sinagoga. Um templo é sempre um templo e há tempos, outros lugares, para conversas. A pessoa que toma conta do espaço da sinagoga de Tomar embandeirava-se em conversa alta, arvorada sei lá de que manias, para toda a gente, fossem judeus ou outros que tais, ouvirem. Esta falta de respeito é atroz.

Então decidi compor uma carta e enviá-la aos OCS da cidade, em formato de cidadão interessado e usando as ferramentas de direito de resposta. Ou assim parecidas. A conversa com um natural da cidade confirmou as suspeitas, ele é um músico que se demora por Lisboa, sublinhando a necessidade de me fazer ouvir. Mas depois a ideia decaiu. Irei regressar. A Tomar e a este tema.

20120920

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DESCOBRI-ME OUTRA PEDRA

Entretanto perdi-a, arremessei-a? Sobejou o desenho.

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Desenho - feito na Casa de Santa Catarina, meados de 2009

20120426

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Cheira bem, será Lisboa?

20111225

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De como a sexta é a nova segunda-feira. Deambulo.

Quando era um pouco mais novo, assim mais pequenote, mas não muito, pensava e pesava tanto numa frase: todos temos direito a ser parasitas.

Mais tarde, numa sucessão de empregos mais bem ou outros menos bem sucedidos, de arquitecto a tudo o resto, fui-me dando conta. Mas se uma coisa não justifica a outra, não é por não gostarmos de um trabalho que temos menos brio em conduzi-lo. A forma como trabalhamos reflecte também uma forma de estar. 

Numa inversão de modo de estar, sugiro alteração dos hábitos de trabalho. Fazer apenas aquilo que se gosta. 

20110920

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SARILHOS NADA PEQUENOS

Palimpsestos contínuos, leituras despregadas, memórias levadas, deixadas. Sarilhos Pequenos. Ou seriam grandes?

20110426

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IDEIA

Recycland : furniture : bicho carpinteiro : bicho carpideiro

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Falta um texto que fale das oito colinas de Lisboa. 
Então mas não eram sete como as de Roma ou Jerusalém ou ainda Atenas? 
As colinas de Lisboa são quantas um homem quiser e desejar!

20100915

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Coisas que brotam ao desbarato:

Fazer um guia de como circular no passeio

Comparar Chiado com Morais Soares e comparar Lisboa com outras cidades. Horas de ponta e portas do metro. A fila como instituição. 

Fazer um livro de satisfação e livro de reclamação quanto a clientes. 

Preparar um guia com sinalefas.

20100520

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TEMPESTUOSAMENTE

Um dia chamei-me de finger_urge. É desmedida a vontade de carregar na máquina para fixar aquele momento fotográfico. Nem que me espete (daria um bom instantâneo).

20100403

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Quero tentar perceber por onde andou a Florbela Espanca em Lisboa.
Hotel na Praça da Figueira, é ver isso.

20100310

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OCO DE COLOMBO

Neste momento da minha vida, trabalho continuamente, sete dias por semana, parece que a todas as horas do dia. Esquisso mentalmente bonecos voodoo para espetar neles todas as agruras quotidianas. 

20100202

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Uma ideia que aflora e me sussurra: florigami!

20091210

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REUNIÕES



Reuniões… algum tempo deixado de parte esperando que o desenhasse e pessoas… pessoas falando e assumindo poses, abrindo a boca e gesticulando. É um palco e uma força de expressões que pedem mesmo que as fixe em esboço. Divaga a mão sobre o papel enquanto se prende a mente no que é comentado. Reuniões. E é reciclar o reciclado em linhas de café. Reuniões decisões alinhavadas em linhas de café. 

Imagens - 1ª, 2ª e 4ª - esquissos a caneta, de várias reuniões; 3ª - V. em conversa com café de vão de escada na LX Factory, traços a manchas de café e migalhas

20091006

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APONTAMENTO de Outubro

Eu não sou este – mas interpreto. Desfaço-me de folhas em sucessão onde a ideia dificilmente se brota – seria talvez melhor se fora um escritor de bloqueio do que um em bloqueio. Bloqueado estaria e em vez de preencher a folha de caracteres somando ideias preencheria o chão de folhas vazias ou gatafunhadas em treta. 

Ideias chave para utilizar depois: escritor de escrita bloqueada – autobiografia do escritor em bloqueio – cadavre exquis intermitente.

20090928

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BAIRRO ZINE 0.4
carta desd'o bairro
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(1) O BAIRRO JÁ ERA - triangulação espontânea
(2) SISTEMATIZAR FOMES - rumo ensaio

(1) O BAIRRO JÁ ERA - triangulação espontânea

Tento manter isto curto - tento ser rápido e manter isto limpo - sistematizar, ser lacónico, sintético, metódico, imediato. Sem ladainhas, sem confusões, aparelhos, figuras de estilo, rápido. Nada de pausas, deambulações, artifícios, artefícios, peregrinações pela palavra ou atavios de conceito, solto, simples, clean, sem dissertar, sem me perder e vos perder no processo. Sem intróito, nem outras perdidas, sem desvios, atavios, desafios, directo portanto. Breve, sem demasiadas palavras, sem prolixidade, objectivo, conciso, preciso, sem excesso de palavras. Sem ser inútil e cansativo, nem fastidioso, nada. Escrito automático, solto. Espontâneo.

Saí do bairro, o bairro já era, mas se digo ainda que estou no bairro é porque o bairro é outro que não o Bairro, mas outro bairro qualquer bastante e também bairrista - e talvez ainda mais bairrista do que o outro bairro, o tal Bairro. Mas eu continuarei a responder sempre à pergunta que me dedicam, de onde vens, onde vives, com um mecânico: «do Bairro».

Serão os detalhes geográficos tão necessários para que nos saibam?

(2) SISTEMATIZAR FOMES - rumo ensaio

Ler. Comer. Dormir. Sexo. A curiosidade matou o homem e fê-lo querer mais e crer mais também. Porque grafamos homem se ao dizê-lo englobamos também a mulher? Ensaio linhas de livros por encadernar. Escreverei prefácios - só. Serei um eterno escritor de livros em construção. Operário em construção? Sempre - de linhas. E o conceito? Terá sempre que ser vencedor - sempre - conceituar conceptualmente rumos ao consumidor. Uma receita de sucesso em publicidade. E o que é a publicidade? É tudo na vida. A publicidade estimula a curiosidade, lês um livro porque o vês e comprarás imediatamente se a capa for atraente. Se surgir por sugestão - essa referência não passa de publicidade encapotada, é o anúncio por terceiros na verdade.

Comes aquilo que saciou o olho, a comida confecciona-se para estimular este em primeiro, a publicidade aqui é ao palato via nervo ocular. Dormir, que engano. Adoraria não precisar, tanta hora perdida para depois retomar o dia e fechar o ciclo dormindo, mas isto em eterno retorno, sempre. O estímulo aqui é cultural - se bocejam ao meu lado, terei que bocejar também e nem o apercebo. Só depois de cumprido o abrir de boca. E sexo? Querem maior exemplo para a intervenção publicitária na errática vida do ser humano? A indumentária é essencial, os humores do corpo delicadamente escondidos sob perfume, o galanteio e o charme camuflados qb em espera de uso providencial, tudo estudado e calculado para a percepção do outro e para o encontro de corpos. É isto, está comprovado. O ser humano não passa de um publicitário. Quem surgiu primeiro então, a publicidade ou o publicitado?

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Paleta de som - Animal Collective > Peacebone  + The Kills > Tape Song

Imagem - Bairro Alto, Lisboa, Agosto de 2009

20090610

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QUE FAREI QUANDO TUDO ARDE?
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Teatrinho de sombras, palco do mundo, bailarinos sobre um soco de Lobo Antunes e rodeado de piras de cera, dança Matisse desde um grupo dobrado a metal. A sombra que resulta é dos seus corpos em movimento. O lobo e as luzes.

Local - Casa de Santa Catarina, Lisboa

20090506

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CHIMONIZ

Aos entrelinhados nos lostes em translations...

Sou um regular do Martim Moniz. Não fico preso em nenhuma porta e rondo pela Mouraria, o nome mais apropriado que encontro nos nomes de Lisboa para a população que ali perambula. O que me menos me agrada é ser incompreendido e sentir o olhar de desaprovação ou de desconfiança. 

Mas nunca deixarei de gostar deste bairro de Lisboa.

Talvez seja necessário levar escrito, apontado em glossário, meia dúzia de linhas apenas:

1 Como dizer determinadas coisas em chinês, para o pragmatismo de certas trocas comerciais;

2 Glossário em romeno ou romani, simplificado, frases de enxota ou de deixa-me estar;

3 Dicionários e guias para a Pakistona, a Chinaria e o Chimoniz.

Estarei achado.

20080529

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BAIRRO ZINE 0.3
a carta desd'o bairro
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(1) ROSEBUD(DY) - ensaio algo-assim-são
(2) JUGULAR - andamento suave


(1) ROSEBUD(DY) - ensaio algo-assim-são

Rosebud foi a última palavra a soltar-se da boca de Charles Foster Kane no filme de Welles e que serviu de mote a toda uma busca sobre a essência de uma vida e a um revolver do passado cheio desse homem muribundo que soçobrava libertando o mundo que abraçou. Não era mais que uma palavra obscura balbuciada pela personagem central do filme que reflectia um outro cidadão americano bem real - WRHearst - e que levou a uma falhada e intensa busca pelo nada! Não somos mais que meros acumuladores de experiências em contínuo crescendo - cumulando, acumulando, acrescendo, crescendo - depositamos em nós tanto ao longo de tantos anos que se torna quase irónico que se resuma em última frase de vida todo um existir! Somos um depósito, uma caixa, um invólucro, uns capturadores de imagens, uns recolectores de memórias!

Apetecia-me fazer aqui um pequeno apanhado das grandes frases do ocaso mas fico-me pela do tesouro luso, Camões, a quem colocaram na hora da morte o seguinte dito que acompanhava a crise de sucessão do momento: 'Morro com a pátria'.

Não podemos resumir tudo o que temos de vida numa frase só de momento só e a frase de Camões - mítica e teatral - foi encaixada ali pelos potenciadores de mitos. Talvez que com o meu último sopro se me despegue algo como falta-me aquilo na despensa ou um ai pelo jogo esquecido de apostar. Poder-se-á prever algo que faremos com tanta antecendência e nitidez? Poderias prever estar a ler isto que lês agora, sorrindo então pela óbvia referência a ti próprio? E que frase empregarias no último momento- caso fosse possível a escolha - ficaria de epitáfio solene em estertor final?

Repousa de mim. Jaz por terra.

(2) JUGULAR - andamento suave

Prendeu-se na minha memória uma peça de videoart de João Tabarra que vi no início do ano passado e que mostrava um sapateador com uma caraça colocada - oculto portanto - percorrendo um trajecto pré-estabelecido pelas ruas de Lisboa, do Marquês até ao Rossio. Todas as pessoas a quem o artista se apresentava, assim insólito sapateando pela rua e mascarado, ficavam surpreendidas. Esse era a verdadeira intenção da peça e a natural confusão induzida nos transeuntes a arte em si! Paravam todos e questionavam-se, sorriam uns, agitavam a cabeça outros, uns ficavam perplexos procurando apoio sobre o ridículo a que se achavam assistir, outros fingiam-se desinteressados para estancarem mais à frente, volteando-se - isto faz apetecer provocar as pessoas continuamente, perpetuando um estado de contínua dúvida e apelando à crítica. Não é verdadeiramente isto a que se poderá chamar a arte, não seria esta uma definição próxima?

A jugular é uma das nossas veias fundamentais, um dos vasos sanguíneos essenciais que na volta do sangue para o cérebro se esvaziou de oxigénio por ali e vem alimentar novamente o coração em eterno retorno. Em Eterno Retorno. O homem que segue sapateando em circuito fechado (em percurso do início para o fim - ponho mentalmente o filme em loop - mas sempre temos que caminhar, até desaparecermos) e o cíclico fluxo sanguíneo são exemplos da continuidade e alternância em tudo o que existe, faces da moeda de vida em que seguimos, em rotação perpétua.

Como se chama o montículo de carne do lado esquerdo da palma da tua mão, abcesso do polegar, logo acima do pulso? Imagino-te rodando a mão identificando o tal pedaço de carne de que falo - gesto ridículo já que a resposta não está cravada na pele, mas sim no fundo do zine.


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Paleta de som - Sneaker Pimps > Six Underground (som eleito de casa) + The National > Fake Empire (de MP3 vogando pela cidade)

Imagem - Luz nas ruas, Príncipe Real, Lisboa

Notas - (1) o filme, Citizen Kane; (2) teoria do eterno retorno, Nietzsche; montículo da mão, Monte de Vénus

20080413

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BAIRRO ZINE 0.2
a carta desd'o bairro

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(1) POMBOS DE MIM - ensaio de mim
(2) O CIRCO DO BAIRRO ALTO - pequeno ensaio sobre uma busca
(3) NOVAS IMEDIATAS - assuntos dispersos
(1) POMBOS DE MIM - ensaio de mim

Dizia-me alguém há pouco tempo após ler algo de mim - sem tirar quaisquer outras conclusões, sem nada mais apontar, o que me irritou quase até ao infinito: 'Eu estou numa onda de ficção, não tanto autobiográfica...', enquanto me passava o manuscrito para a mão descolando-me o sorriso.

Autobiografia... resume-se o que escrevo a pedaços de mim fitacolados em papel em sucessão de umbiguismo, escrito escritos pontapeados sobre a folha expondo este Rafa e as suas coisas de Rafa? Não quero ser nem Miller nem Gutierrez, nem Lobo Antunes, nem Bukowski - partilho com os outros aquilo que vejo e sinto e sou e fico assim etiquetado, engavetado num rótulo de Autobiógrafo.

Sobrevem-me o superego sobre o ego por andar em constante sobressalto para acalmar esta angústia de nada conhecer por mais que conheça, doo-me a ti porque me espelho em todos os que seguem angustiados na senda da cura desse estado de ser - tu. 'Não me parece angústia, é sede de saber!' - dizia outro alguém; mas é angústia é, porque é quase tangível este desejo de tudo abarcar e tudo aperceber e que segue ainda e cada vez mais presente como inalcançável. 'Ignorance is bliss', é possível que seja verdade, mas é tão sensaborão!

Ainda no outro dia era eu um grande ponto de interrogação e dizia-me ela sobre tudo isto: 'Falta-te um rumo, mostra algo às pessoas que lhes diga algo, que lhes capte a atenção'. Um rumo é algo que requer demasiado planeamento e eu vejo-me ziguezagueando por aí, sempre; este rumo soaria a falso porque não espelharia este escriba porvir, esta tentativa ainda insossa de alguém que se quer fazer por letras.

Dois pombos habitam a caixa de estores do andar desabitado logo abaixo do meu, inalcançáveis. Empoleiram-se sobre os estores durante as tardes solarentas e acomodam-se enroscando-se quando cai a noite, cagando-me a entrada do prédio com a precisão de um F117 de mira calibrada sobre quem entra e sai. Tenho já o tique de antes de meter a chave à porta e de me esgueirar - porta dentro, porta fora - de virar o olhar para cima, procurando esquivar-me de algo ou de tudo que se solte lá de cima, desde um quase longínquo terceiro andar.

Todos os dias lá estão e não lhes posso tocar nem de sopro. Que melhor metáfora para a vida do que o estar sempre receoso com o toque da imundície e seguir sempre saltando para nos cumprirmos?

(2) O CIRCO NO BAIRRO ALTO - pequeno ensaio sobre uma busca

Seduz-me saber mais do que sei sobre o sítio onde habito - continuamente e em crescendo - porque não há melhor ambição geográfica do que conhecer realmente o chão que pisamos no quotidiano, ainda que por alguns dias ou meses. A nossa casa - a tal reconfortante ideia de lar - realiza-se plenamente ao juntarmos à percepção real deste espaço entre estas 4 paredes que me confinam agora e aos seus apêndices compartimentos, a noção da casa vizinha, do prédio em frente, da rua, da calçada e suas pedras, do quarteirão e do bairro, da colina e da cidade toda, das lojas e das pessoas e suas preocupações.

Tratar pelo nome o dono do café próximo e partilhar com ele o resultado do futebol, lidar tu cá tu lá com a senhora da mercearia de última hora e ter guardado de antemão o melhor e mais fresco produto da casa, não abrir a boca estremunhado pela manhã ao entrar na pastelaria da esquina e ser presenteado com o costumeiro pequeno-almoço.

No BA, neste Bairro Alto onde respiro, tenho para já três ambições de pesquisa, a saber: desvendar a história e origem da Escola de Circo do Bairro Alto; investigar a sua génese teatral, relacionando-a com a Rua Luísa Todi, onde viveu Silva Porto e saber mais sobre quando o BA era o núcleo jornalístico da cidade, onde existe ainda A Bola, último sobrevivente noticioso e onde já laboraram O Século, A Capital e o DN, entre imensos outros.

(3) NOVAS IMEDIATAS - assuntos dispersos

Caros, entrego novas sobre este que se vai despedindo, entregando-se a um sono lento entorpecedor; qualquer escrito tem que terminar assim, revendo-me e anunciando-me. De concursos, perdi o Távora mas fiquei em 2º no de cenografia para As Boas Raparigas, do Porto (alguém o disse, nunca o consegui confirmar); perdi o Maria Matos, mas fiquei em 4º no Pavicer, com direito a exposição e publicação (a empresa acabou por falir no decurso de 2015-16?). 

Do mais o mais importante é mesmo o M+A+L : www.movimentoacordalisboa.com (entretanto descontinuado), que corre destemido e resoluto em chocalhar LX.
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Paleta de som - PJ Harvey > We Float

Imagem - Ensaios com fibra óptica, Carpe Diem, Lisboa

20080402

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O ENSAIO NO MAL
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Contra o tédio domingueiro, e com o bom tempo nas costas o MovimentoAcordaLisboa.com convida-te.

O *Rafael Vieira* prepara as algas marítimas, o arroz, o salmão em tiras finas e os camarões. Vai criando os* *rolinhos que servem de pretexto para quem queira conhecer a nova morada do MAL lá para os lados do Saldanha, para quem queira sociabilizar *à bruta. *A agulha vai tocando o vinil, e de faixa em faixa, em momentos tranquilos e frescos deixamos-nos levar pela, mão e sensibilidade de *Miguel Carvalho*.

A Casa não é uma galeria, não é um bar, não é um restaurante, não é sala de exposição, nem é centro de *workshops*. É simplesmente uma Casa que alberga muito mais e cultura. Este é um duplo convite. Um convite à tua presença e também um convite à tua arte.

Na Casa do MAL encontrarás um projector, um ecrã, hi-fi, paredes, mesas e até o chão para apresentares à cidade o teu talento. Traz a tua vontade e no *Domingo, 6 de Abril a partir das 19h e até às 23h* abrimos as portas à Casa em Branco. Sushi, saké, chás gelados, vinho e cerveja caseira por 10 €.

Na senda do Porta Aberta, surge esta proposta numa Casa maior para os inícios de noite de domingo. No espírito de noites de curiosidade e olhares indiscretos, estás convidad@.

Inscrições abertas até Quinta-feira inclusive em baixo. Caso queiras propor conteúdos para futuros *happenings* email para geral@movimentoacordalisboa.com. As nossas paredes podem muito bem ser tuas...
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Texto - Texto composto para um «Porta Aberta» de sushi, evento do MAL - Movimento Acorda Lisboa, Saldanha, Abril de 2008. Recuperado do site que foi entretanto descontinuado

Imagem - Nikon FE10, Cais do Ginjal, Almada, Agosto de 2008

20080131

~++´+´+´~´ºç.,m

BAIRRO ZINE 0.1 
a carta desd'o bairro
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(1) APRESENTAÇÃO DE MIM MANIFESTO - retro-retrato
(2) O SINALEIRO DO PRÍNCIPE REAL - curta de esquina

(1) APRESENTAÇÃO DE MIM MANIFESTO - retro-retrato

Procurei no quotidiano a forma mais usual de apresentação entre as pessoas e encontro sempre os mesmos passos, o mesmo mecanismo: chamo-me, vivo em, nasci a e em, sou de, vim de...

Na maior parte das vezes surge apenas o nome a preceder o aperto de mão ou o beijo. Nos mais formais dos casos avança apenas a mão, em predicado; para nos cumprimentos de amigo ser toda a pessoa rodeada em amplexo e coberta de beijos, ósculos de contentamento.

Procurei na poesia forma concreta ou indefinida de alguém se concretizar e na prosa o mesmo, atributos com que o escriba se clarificasse. Bocage, Pessoa, nariz, tez e altura.

Procuro em mim e nas minhas palavras, forma mais natural e não tão formatada como o do ritual dos dias, para me descrever e encontro este, quase como um manifesto, quase como um Rosebud *1, um manifesto ponto-de-situação de mim, um alinhavado de intenções também:

«Não tenho afinidades políticas que não sejam as humanistas e observo com atenção todas as próximas a esse meu ideário. Quero os amigos bem perto e não me desejo com inimigos. Sou talvez demasiado bom quando por vezes até devia ser bastante mau, mas essa nunca é uma virtude por de menos. De estatura média, carrego nariz de verdadeira grandeza, que remata a testa límpida e a nuca de cabelo inexistente. Barba rala persistente, 3 amuletos cravados na cara, brilhando quais estrelas perdidas desta minha constelação.

Sorriso aberto e cravado de cigarro. Corpo médio magro, nem fino nem cheio; dedos de pianista sem o saber. Olhos brilhantes castanhos de cambiante irregular, tanto verde azeitona como mel, como... diz-me. Identifico-me contigo e, por isso, recebes isto, toma.»

*1 
Rosebud, última frase dita por Citizen Kane, no homónimo filme de Orson Welles, que fabricou para a primeira página da primeira edição para o primeiro jornal de muitos, um manifesto de intenções escrito à mão.

(2) O SINALEIRO DO PRÍNCIPE REAL - curta de esquina

Serve um pequeno conto como partilha do dia-a-dia, descontinuada sim, mas querida.

Seguro-me ao carro pela manhã ao sair de casa, vou ainda estremunhado e tenho que confiar nesse meu suposto piloto mecânico, não completamente automático, para me guiar. Escorrego a mão sobre a caixa de velocidades para regular o andamento do veículo e volto logo com ela ao volante, acomodando-a nas 10/10, assemelhando-me aos condutores dos filmes americanos de há uns anos atrás: em nada credíveis, as mãos sempre a par sobre o volante e agitando este, de um lado para o outro.

No meu percurso de sempre encontro-me com uma das figuras do meu imaginário de LX, o sinaleiro do Príncipe Real, da Praça do Príncipe Real, quase a chegar ao Rato, depois da Escola Politécnica e do Botânico. Este polícia sempre me encontra pela manhã e eu a ele, locomovendo-me como posso consoante a sua indicação, e comigo, o meu acessório apêndice máquina.

Sujeito-me aos seus humores de polícia e paro ao seu sinal, mão em riste, travando-me. É esta uma saudação matinal? Avançam os outros, os da rua lateral e eu espero, deixando-me levar pela dança maquinal e frenética que o polícia-sinaleiro executa à minha frente. Apito na boca e braços em manobras, executa toda uma dança em desporto de agora. Improvisa uma caixa onde se debate, os seus olhos vogam para lá e para cá, felino, a controlar todos os movimentos de quem passa e se chega. Vocaliza apenas agudos, não verbaliza palavras, constroi ordens em andamento de sinfonia, mas prescindiu do resto da orquestra e só acolhe este único instrumento.

Eu acho-o belo em todo o seu funcionar, é um mimo de azul posto em farda e de um pequeno mundo de veículos e pessoas na mão, é um dançarino em palco de alcatrão posto a improvisar, horas seguidas.

Amanhã por esta hora eu o receberei novamente, com este olhar e este sorriso. Até, agora sigo por esta rua que se me abre à direita. Vejo-o ou imagino-o a acenar-me pelo espelho retrovisor. Talvez, faço este caminho todos os dias, não poderá guardar um gesto só para mim?

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Imagem - Bica de Duarte Belo, Lisboa. Tirada numa LC-A+, workshop de lomo pela Embaixada Lomográfica

20080126

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AMO-TE TONTO

uma mensagem é uma massagem
e
amo-te tonto, toda!

eu todo sorrio
sou eu sorriso,
sou eu o teu a tua boca, o teu respirar, o teu seio

preenche-me de vez, segura


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Desenho - em Lisboa, meados de 2008
022007

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ESCRITO EU

LX, 3 horas e trinta minutos
acabado de chegar do bairro
hoje sinto-me um escroto
um pedaço visceral de coisa humana
um nada
um naco de nada
nem um pedaço de gente
um vazio, um oco, um sem nada de ar
uma espécie de homem
um anão, um gnomo
nem um duende se aguentava aqui
sou um Nobre, uma Espanca, um al berto, um Andrade, um Gama, um Pessoa
sou de vísceras e de carnes
dilacerado por de dentro
sou um néscio decapitado

adoroador!
fezes pessoas!
eremitério Lisboa!
Cidade Sarjeta!

a partir de hoje existem dois caminhos divergentes
um sou eu que escrevo
o outro é o escrito
duas vidas que divergem de apenas uma
este eu que escrevo sou o pessoa
no fim o escrito é o autêntico e o escritor é o falso
estou de copo e alma
nesta irresoluta resolução
flutuante pássaro!

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Imagem - Cais do Sodré, Lisboa. Tirada numa LC-A+, workshop de lomo pela Embaixada Lomográfica