20060914

\º´\º´\º´\

VIAGENS

O que me chateia n’As Viagens de Gulliver “Travels into Several Remote Nations of the World” ou "Gulliver's Travels” é a indefinição ideológica partidária da época caricaturada pelo livro (não tem maniqueísmos bacocos a ilustrar “a” esquerda e “a” direita mas também passa a ideia de que não existem os conceito de humanismo e de bem público) e a condenação do livre pensamento (sendo que este é notoriamente uma opinião muito pessoal do moralista, conservador e clérigo Jonathan Swift).

20060906

(=?()?/=?/)(=/()=/=

CATARSE DE SETEMBRO 2 

Prossigo com o meu jogo de xadrez pela net, quarto lance mandado via email. Então comparsa, quando arremessas a jogada de volta?

Espero pela minha cópia d’A Caverna do nobel Saramago com que uma amiga me decidiu, felizmente, presentear (confesso que, depois de me iniciar em Borges, Saramago aparenta-se-me bem sensaborão!). E se trouxermos à baila ainda Nabokov, Kafka e Poe, Saramago fica bem pequenininho.

O Chapitô deu SIM!!

Chapitolas, chapitolas!!!

Mas... amanhã... haverá o sim definitivo.

`*=?`=?=??==?

CATARSE DE SETEMBRO 1

Como copiosamente umas uvas deliciosas que me trouxeram enquanto trabucava. O calor arrebenta-se-me em cima, intenso e insuportável. Estão para cima de 35º em LX e trabalho sem ar condicionado.

A estação de serviço ao lado de minha casa, que uso para me abastecer simultaneamente de cigarros e de gasolina, são as mais caóticas entre as milhentas que já vi na minha vida.

Prossigo acesa discussão cibernética com um energúmeno inclassificável - sabe-me tão bem açoitá-lo por palavras!

Deixo cair um telemóvel e agarro-me a outro. Ando a coleccionar desejos de viagem e a ler simultaneamente Contos do Nascer da Terra, Trópico de Câncer e Viagens de Gulliver. O primeiro é do mais doce que já li, ao que sempre me habituou o moçambicano Mia Couto. O segundo é inclassificável, cáustico até ao infinito, perturbante e duro tal como o é prolixo nesses atributos o seu autor, Henry Miller. É o livro que mais me custou ler até agora – e anseio algo aparvalhado pelo resto da trilogia autobiográfica. O último já tinha lido e terminarei hoje depois de o ter começado no Domingo – comprei-o na Feira do Livro do Avante, aliás no estaminé da Feira da Ladra do Avante, por uns míseros cinquenta cêntimos.

Volto do Avante com a sensação de ter estado num dos melhores festivais feito em terras portuguesas (conheço-os a todos, com excepção do primeiro, o de Vilar de Mouros). O de Paredes, aonde já fui e já voltei, guardo-o como o outro também excepcional.

Aguardo pelo concerto da Maria João e Mário Lajinha amanhã, no Casino Estoril. Falam-me na estupidez de protocolo do código de vestuário, que espero não ter que obedecer. Afinal, o concerto até é gratuito! E grafa-se lajinha ou laginha? Não acho fidedigna uma pesquisa na Net, que até nem me apetece fazer.

Tenho nova morada, que podem ver aqui: http://humano-s.blogspot.com, onde publiquei uma foto do Google Earth.

O Chapitô, até agora, vai bem de saúde para quem lá quer entrar, e a minha boa amiga, pressagio, vai consegui-lo! A António Arroio é a outra hipótese a não descartar.

Tento impor a regra de conduta da reciclagem no meu atelier, mas seguem inglórias as tentativas. Tento reduzir, aumentam; tento reutilizar, desaparecem os desperdícios; tento reciclar, somem-se as oportunidades. Amanhã prossigo na ideia da minha melhor amiga estacionada em Newcastle-upon-Tyne, a Sissa.

Tenho o poema do Corvo, de Poe, para ler. Finalmente.

Amanhã estreia o novo de Almodóvar; como gosto tanto deste tenho que ver aquele.

Terminaram a Ciudad Judicial de Barcelona y L’Hospitalet de Llobregat, dos B720+Chipperfield. Como gostaria de ver esse mono erecto bem à minha frente.

Estas catarses dão-me de tempos a tempos e sabem-me pela vida – à la ZDQ, gato fedorento. Terei outra daqui a talvez-quando-não-o-sei.

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Fotografia - Cais do Ginjal, meados de 2006

20060706

º\º´\´\ºº´\~~~~11122

06062006 

mais futebol

Acabei de ver o jogo de Portugal – França. Perdemos mal quando o merecido seria um empate e um prolongamento. Faltou-nos talento para terminar muitas jogadas que levavam selo de golo. O penaltie sobre Henry não existiu, como não existiu falta sobre o Ronaldo na área contrária. De novo se repete a derrota perante o nosso carrasco de serviço: a França, tal como em 84 e tal como em 2000. A arbitragem teve uma falha que não teve uma grande influência no resultado, o que me parece pior foi o anti-jogo praticado pela equipa francesa de travagem no ritmo do encontro, por ter jogado à italiana com defesa em bloco e contra-ataques possíveis e pela demora constante na reposição da bola em jogo. Devia ter existido um amarelo para Barthez por isso.

O melhor deste Mundial foi ter-se apagado a memória boa mas esmagadora do Mundial de 66 e pelo demonstrar das capacidades infinitas da Selecção. Portugal vive muito de fantasmas e é necessário eliminá-los. Fora o sebastianismo bacoco e que acabe o "fado" paralisante.

O terceiro lugar é nosso e daqui a dois e quatro anos se verá.

|ª`^ª^/(&/&%&÷¶[÷[

O POEMA DO MINDINHO 

a uma amiga estacionada em newcastle-upon-tyne, que se questionou uma destas tardes sobre a desconsideração votada ao dedo mindinho

o mindinho é o pequenino amado pelos outros dedos
o mindinho está nas alas da mão mas não está de canto
o mindinho não se pôe de castigo pois a mão não o solta, como mãe extremosa que é
no mindinho também se põem anéis e a sua unha também é manicurada e pintada para o pôr bonito
se algo de mau ocorrer à maternal mão, também o mindinho, como filho e irmão que se preze, sofrerá
o mindinho segura-me a chávena de café por debaixo
o mindinho coça-me o olho e afaga-me a sobrancelha
com o mindinho faço piretes carinhosos e falsos
o mindinho tira-me o cotão do umbigo, a ranhoca do nariz e a nhanha da orelha
em parelha com o polegar, o mindinho forma uns cornos com que presenteamos os nossos inimigos
o mindinho é fundamental para quem toca piano
o mindinho é um coto necessário para os dactilógrafos, estenógrafos e simples escribas de pc
os praticantes de tiro com arco e de setas não negligenciam a importância do seu mindinho
sem o mindinho, a linguagem gestual teria que ser revista
também seguro o cigarro entre o mindinho e o anelar (testei-o agora)
o mindinho é parte necessária do processo de enrolar cigarros e de queimar e esfarelar a pedra para o porro

nos países em guerra da África e Ásia o mindinho das crianças é que limpa as armas
consigo também estalar o mindinho, claro que sem o estrépito claro do médio e do indicador
com o mindinho sossego a comichão que tenho agora na perna
mesmo agora coçava a cabeça com o mindinho, enquanto reflectia noutros atributos deste nosso dedito

a imagem de marca de alguns grunhos portugas é manterem a unha do mindinho enorme, facto sociológico de que não descortino a função - será a tal de limpar de impurezas os pavilhões auditivos?

mesmo o mínimo do pé, primo próximo (direito ou esquerdo) do dedo mindinho e também descurado na sua necessidade óbvia, tem a sua importante função: a do nosso equilíbrio.
também necessitamos do mindinho para fazer o pino, para nadar, para abraçar, para tirar o cabelo maroto de sobre a cara da nossa pessoa amada e também para cumprimentar os conhecidos e amigos, no vulgo "bacalhau"
e não imagino a mão sem o mindinho, como seria termos quatro dedos, somando oito nas duas terminações dos nossos membros superiores? caricato por hábito, não?
de equilíbrio e de estética resulta muito bem o nosso mindinho na nossa mão
como ferramenta de trabalho é indispensável o mindinho
quando tiver um filho chamar-lhe-ei mindinho josé em reverência ao nosso dedo
se fôr menina fica como mindinha
se forem gémeos é mais complicado, mas posso fazer variações: mindinho, mindo, minde, mindocas...

mindinho ao poder, mindinhos de todo o mundo, uni-vos.

proponho a fundação do partido do mindinho e do sindicato dos mindinhos para lutar pelos direitos desta classe de dedos desprezada. a central sindical do mindinho perfila-se já no horizonte e o jornal do mindinho e a revista de periodicidade semanal mindinho serão um acrescento essencial à subida ao justo estrelato de um dedo tão desconsiderado.

sugiro também renomear a cidade do Mindelo em Cabo Verde e a Vila de Minde para cidade e vila do mindinho, respectivamente

os mindinhos de todo o mundo farão um cordão humano, perdão, mindinho - falta-me o adjectivo -, mindinho abraçado - falta um glossário de mindinho para escrever - com mindinho até aos antípodas deste planeta terra. mais: declaro como necessário mudar o nome deste calhau do universo de terra para mindinho! seria mais que a justíssima homenagem a um pedaço de carne, tendão e osso tão menosprezado! e a lua seria a lua chamada de mindinho em órbita estacionária desse outro astro renomeado de mindinho. confundir-se-iam os dois pontos astrais pelo nome mas não pela vida e dinâmica que pulula num deles: o povo dos mindinhos felizes, the happy folk!

89|ª`|ª^ª^^

29052006 

Hoje decidi escrever em catadupa, em catarse de fim de tarde: estou em Lisboa, neste preciso momento sem ninguém com quem estar, pontualmente sem nada para fazer e, numa pausa merecida e forçada no mundial da alemanha - sem jogos para assistir. Assim, me assiste a vontade de escrever umas linhas sobre alguns temas da actualidade que me têm comido a moleirinha, e, como gosto de escrever sobre assuntos actuais... Now, with no further ado.

1 sobre Timor Lorosae
2 Mundial

1 sobre Timor Lorosae

Já andava há uns tempos para debitar uns pensamentos sobre o “nosso” Timor Leste mas esperei até agora para ver até onde a situação ia, se recrudescia a violência no território ou se passava (se amainava) a tempestade e os humores. Como veio a bonança fiquei tranquilo, mas se depois da intempérie chega a calmaria também depois desta é de esperar o retorno da borrasca.

Foi o que aconteceu com as declarações de Mari Alkatiri depois da sua forçada demissão e do ajuntamento de uma multidão de 15 mil pessoas (números da 2:; a SIC falava em 10 mil) para o apoiar, o que fazia prever mais violência assim que este grupo entrasse na capital. Ainda não vi as notícias hoje por isso não sei o que aconteceu entretanto, se a multidão desmobilizou, ou pelo contrário, e isto é o que temo que venha a acontecer, os partidários do ex-primeiro ministro entraram em díli e prosseguiram com a táctica da guerrilha e da terra queimada.

Há sempre questões que ficam penduradas em situações tão complexas como a que se vive agora em timor e as quais parece que ninguém se digna a responder, divagando por fait divers. Há umas quantas que ficaram a vogar no éter da minha incredulidade e que gostava que fossem respondidas para repousarem a minha ignorância e insatisfação.

São estas questões que me atormentam:

Como pode Xanana chantagear, na impossibilidade legislativa de o demitir, o primeiro ministro de um país que é ainda uma democracia ameaçada e que precisa, acima de tudo, de estabilidade política, baseado numa notícia saída num jornal australiano?

Foi essa reportagem fidedigna e essas acusações comprovadas?

Qual o interesse australiano em Timor e qual a verdade dentro do rumor de participação activa do governo australiano no levantamento militar?

Como permitiu o governo timorense a entrada das forças militares australianas dentro do espaço soberano nacional quando o ideal seria uma task force policial militarizada coordenada pela onu (como de resto, se constituiu a intervenção portuguesa, com os paramilitares do GOE)?

E porquê esta rápida movimentação militar australiana, indicando que já saberiam de antemão o despontar deste pseudo coup de êtat?

Respondam por favor.

2 Mundial

É histórica a participação portuguesa neste Mundial! É a segunda vez que estamos neste patamar de qualidade futebolística e entre as quatro melhores selecções do mundo. Das caminhadas gloriosas mas não vitoriosas de 66, de 84, de 2000 e de 2004 e pela menor distância entre estas 2 últimas (intercaladas pelo desastre de 2002) perfilam-se vitórias firmadas nos próximos tempos – e a isto se chama evolução – e juntando títulos mundiais e europeus de séniores aos dois títulos de esperanças. 

Vejo neste momento o desenrolar do jogo entre Portugal e França (um dos nossos carrascos) e espero que vençamos para tornar 2006 o ano da vitórias autênticas de Portugal.

20060705

/()())(/()=()=

VAMOS LÁ PÔR BOLAS (PONTOS) NOS IS 

e isto a propósito das picardias entre os lusos e os brasucas na net relacionadas com futebol e que soltaram questões antigas

o maior erro que se pode fazer quando se comentam outros povos é generalizar. existe uma minoria portuguesa que odeia brasileiros (e quaisquer outros povos) e há brasileiros que odeiam portugal por motivos históricos.

mais que conheço as banais anedotas sobre os portugas e sei-as regulares no brasil, mas em portugal existem outras tantas a malhar nos brasucas! há, sobretudo, que ter humor.

que estes sentimentos (de jocosidade generalizada, de ódio por parte de uma minoria) definam o pensar de um povo está absolutamente errado, como é erróneo também pensar que por sermos apodados de povos irmãos, devemos ser devedores da mais pura e franca gratidão (da parte brasileira) e da mais justa e fraterna subserviência (da parte portuguesa). 

eu prefiro pensar que todos os povos do mundo são nossos irmãos, em que os brasileiros se afiguram como um irmão mais próximo - mais novo mas mais possante e mais íntimo e amado - mas isso não é garante de que, quando necessário, puxe mais pelo meu país do que pelo brasil. e não existe sensibilidade entre (países) irmãos no que concerne ainteresses económicos, bélicos, comerciais e estratégicos.

tenho orgulho de que o brasil fale português (e os seus 180 milhões de habitantes tornam a nossa língua a 6ª do mundo) e tenha profundos laços históricos com portugal - dele veio e dele descendem ainda muitos dos brasileiros actuais. considero o brasil uma das potências mundiais porvir. 

tanto me orgulho do brasil de hoje como me envergonho grandemente das falhas do passado, das perseguições aos povos ameríndios, do desbaste da riqueza brasileira, das inconsequentes imposições evangélicas e das destruidoras incursões dos bandeirantes. 

não é possível eliminar a história que foi mal escrita, mas a história de agora e a que virá, está a ser escrita neste preciso momento e cabe-nos a nós redimirmo-nos de erros antigos. esqueçamo-nos, então, dos ódios ridículos.

eu amo o brasil e venero portugal. eu amo o futebol brasileiro e considero-o genial. eu sigo o futebol português avidamente e considero-o uma promessa. e portugal deve muito a todos os brasileiros que cá jogaram e jogam e treinam, pois nos fizeram evoluir - com isto expresso toda a minha gratidão. mas é redutor afirmar que é a scolari, assim como a otto glória no seu tempo, que se deve exclusivamente a caminhada vitoriosa de portugal. 

deve-se é a um conjunto de factores que se juntaram às sublimes capacidades de chefia destes dois técnicos: 

um grupo de jogadores experientes, capazes, lutadores e ambiciosos 
uma caminhada de vitórias anteriores a cada um dos campeonatos

neste mundial de agora juntaram-se as últimas glórias da "geração de ouro" com novas promessas que cresceram a ver esses jogar e o grupo vem na esteira de outros que estiveram nas meias finais do europeu de 1984, que ficaram em terceiro no europeu de 2000 e em segundo no europeude 2004 e que ganharam dois títulos mundiais de esperanças

aos portugas inflamados digo:

os brasileiros não são arrogantes na generalidade, são expansivos e extrovertidos e ainda bem
a selecção canarinha não é mais nem menos beneficiada nas competições do que outras 
5 títulos no campeonato demonstram a sua craveira de genialidade desportiva

este campeonato não demonstrou o que a equipa brasileira consegue fazer, mas todas as equipas têm um momento não

aos brasucas inflamados digo:

portugal não tem títulos maiores porque ainda está em crescimento no futebol, mas parece estar a caminhar bem
a selecção tem algumas glórias (3º lugar no mundial de 66 e pelo menos o quarto no de 2006, 2 terceiros lugares e um segundo no europeu) também 
em clubes portugal tem diversos triunfos (4 títulos europeus, 1 taça uefa, 1 taça das taças, 1 supertaça europeia, 1 taça intercontinental)
os brasileiros não são maltratados em portugal pela maioria dos portugueses, o que se passa é que existe uma minoria de anormais que atacam todos os estrangeiros

abraços portugueses aos brasileiros meus bons amigos

20060627

=?)(DDDD

FUTEBOL 1 

Não tenho postado nada no blog porque tenho dedicado completamente o meu tempo livre ao percurso estonteante de Portugal no Mundial da Alemanha de 2006. Sim, porque eu amo futebol, sou apaixonado pela Académica, venero a selecção e cresci a sofrer verdadeiramente com as nossas vitórias e nossas derrotas dentro das quatro linhas (antes estas em maior número que as outras, mas agora aquelas estão em crescendo – estamos para já em 7º no ranking da FIFA com perspectivas de subir e alcançámos pelo somatório das vitórias na Alemanha o 19º lugar das participações em mundiais, trepando 7 lugares).

Nasci português e cresci com os olhos na bola guiada por jogadores vestidos de vermelho velho e verde vivo. Nascesse brasileiro e seria incondicionalmente canarinho e em vez de ter crescido com a bola toda adentro dos olhos e pregada ao coração teria nascido já com ela no berço a balançar ou com ela como apêndice dependurada dos pés, sujeita e presa ao corpo que a embala por um invisível cordão mais que umbilical. Os brasileiros são os deuses do futebol do Olimpo terreno, só eles fazem vibrar plenamente todos os amantes do desporto rei, rainha, imperador e imperatriz (o único verdadeiramente mundial) com as suas façanhas de bola peléguiada passíveis de fazer acreditar que o jogo é extraordinariamente simples e puro! O futebol praticado pelos melhores futebolistas brasileiros e não o futebol brasileiro (há que demarcar a diferença) é intuitivo e fenomenal e onde quer que eles estejam eu os apoiarei, exceptuando, claro está, quando jogam com Portugal.

Se os brasileiros são os deuses, nós tugas, somos os santos adeptos que seguram a bandeira com sofreguidão tal que quase a rasgam em desespero por este novo sebastianismo que espera por novas e frescas vitórias guerreiras, mas agora dentro das regras do esperado desportivismo. Nós levamos ao extremo o significado da cor mais fria desse nosso símbolo que se desfralda e a outra cor não interessa nomear pois já secou e estancou e não se pretende recuperada.

Apontamentos estatistico-futebolísticos (outra das minhas paixões):

Alemanha 2006 é o quarto mundial em que Portugal participa. Os outros foram 1966, 1986 e 2002.

É interessante reparar neste retorno cíclico de vinte em vinte anos sendo a presença na Coreia-Japão a ovelha ronhosa da tendência (e assim o é/foi duplamente).

Em 2002 nem as santinhas do Oliveirinha nos valeram. Em 1986 fomos o Togo do México.

Em 1966 fomos às meias mas então não houve oitavos, pelo que neste mundial quase que igualámos a caminhada dos magriços contemporâneos – falta uma vitória para igualar a posição (meias finais) e o número de vitórias (5). A última vitória de 66 foi pelo 3º lugar contra a Rússia do soberbo Yashin.

E também em 66 ganhámos ao Brasil por 3-1 na nossa única confrontação em fases finais de mundiais e caímos apenas perante a confiante e caseira Inglaterra dos Charlton, os tais herdeiros dos anglos e dos saxões que iremos novamente defrontar 40 anos depois de 66 e 20 depois de 86 – aqui com vitória, pelo que estamos igualados nos resultados. 

Em conclusão

Vou continuar a apoiar fervorosamente a selecção e vou sofrer como todos no próximo sábado. Se não ganharmos que ganhe a Espanha que pratica um futebol de semideuses a meio caminho entre Portugal e Brasil e se não ganharem os apelidados de nuestros hermanos que ganhe então o escrete do nomeado povo irmão.

20060519

\ºº´\º´\º´\º\´º\´º\´º\´º\´º\´

CAPÍTULO 2 - OS OBTUSOS 

D’aprés henry miller

Diz-me este palhaço que é do pnr!

Apregoa alto e orgulhosamente a sua declarada certidão de militante de extrema direita, a sua verborreia propagandística de xenófobo e racista e a sua prontidão e extremismo de nacionalista!

Estou entre os bichos, e que cegos eles são!

20060518

\º´\º´~~~~Ç~ÇÇ~~~

CAPÍTULO 1, ONDE ESTOU, ONDE ESTÁS?

D’aprés henry miller

estou entre ímpios!

Um proclama bem alto o gosto pelas armas, pelo tiro aos pratos e pelas artes marciais. E defende ainda obstinadamente o recurso às armas como último e mais eficaz meio de defesa pessoal, seja em casa ou na rua, como reduto e baluarte únicos dos oprimidos contra os ruins!

Outros dois defendem abertamente o anterior. Outro ainda suporta o primeiro, mas mantém-se comedido.

Tenho escondido que sou do BE, mas as qualidades que penso possuir, de civismo e humanidade, saltam por palavras cá para fora e tentam alterar algumas complicadas mentalidades... Infrutífero - nunca se conseguem modelar atitudes extremistas, corrigir pensamentos ínvios e reeducar mentes obstinadas, quando os indivíduos acreditam realmente nisso tudo e têm nutrido ódios e incompreensões! É o falhanço total!

Um admite consumir drogas amiúde, de todos os tipos, regular e prontamente, pelo simples gozo pessoal ou para inclusão no grupo. Outro sei-o que faz o mesmo há já três dezenas de anos, disse-o o anterior e eu confio. O declarado consumidor de estupefacientes diz-me que é o mais habitual por estas zonas e que todos o fazem e o continuam a fazer e ainda me convida para participar no repasto, estranhando a minha recusa. Já fumei, já enrolei e já travei, o resto não o quero porque sou fraco de espírito – por mais que tente e queira não deixo de fumar – e segui em frente.

Existe ainda este que destila prepotência por todos os poros, mas canalizado apenas só sobre os que não têm formação superior! Eu e outros dois, por sermos licenciados, fugimos à deflagração, mas eu, em especial, sinto-me enojado e nada confortável por tal tratamento especial e diferenciado e por ver rebaixadas pessoas pela única razão de não possuírem habilitações!

Esta é a mentira e a antipatia tornada gente. O outro que se lhe junta é outro que tal e copia-lhe inteiramente o modo de lidar com os demais.

E falam e falam e apregoam e pregam e doutrinam sobre os bairros povoados com negros e brasileiros e ucras e sei lá mais quem que seja estrangeiro e estranho e mais escuro ou mais claro – em suma, diferente – e que não encaixe no WLPC (white luso-portuguese catholic), anagrama copiando o famosamente triste WASP. Pintam subúrbios de criminosos e obstinados e esfaimados meliantes que ocupam e destroem tudo e que se pudessem destruíam ainda mais, no seu simples entendimento de preto-no-branco, numa simplista divisão maniqueísta das coisas – não é dos nossos porque não encaixa no nosso perfil, logo não é bom nem bem vindo, ponto!

E justificam o defender-se pela força das armas, inclusivamente admitindo o matar, não compreendendo o princípio das coisas ou não o querendo de todo sequer perceber. Queria que fossem todos pretos mansos para sofrerem na pele o desgaste da incompreensão e da intolerância; da falta de recursos e da constante exclusão; dos caminhos a que se é obrigado a trilhar e que não têm alternativas, nem bifurcações, nem tão pouco interfaces.

Este é asquerosamente tímido e não expõe publicamente as suas convicções, pelo que não admito conhecer a sua forma de pensamento. O que se lhe avizinha no cubículo é todo sorrisos e simpatias mas palpito que é por pressentir o seu posto a perigar.

O último é brasuca e foi aceite.

º´\º

BEIJINHO

Bateram hoje à porta de minha casa. Palhaços. 

Em “Bateram” quero dizer que deram um beijinho, bateram chapa com chapa e não: tocaram à minha porta e tal. Será que não percebem que andar a mais de cem no interior duma zona habitacional só pode dar merda, eventualmente?

'''''00090

LX

Trabalho em Lisboa. Stop. 

A mensagem telegráfica anterior era um ponto de situação. Agora vai o sumo da coisa: é fantástico trabalhar aqui – por comparação à desolada província por onde minguei e por onde rastejei por três longos e estafados anos – e por comparação também à decadente e provinciana Coimbra (já o dizia Adolfo Correia da Rocha, o Torga, Miguel). Já me instalei quase totalmente numa porção de casa mas espero ainda por algo mais concreto e definido e completamente definitivo – sendo que aqui, a etapa temporal que declaro como querendo ser definitiva, abarcará de seis meses (período de tempo igual a BCN) a um ano ou mais, e será enquanto durar o filão e dourar a criatividade! 

Instalei já o meu papel de parede de desenhos e o meu mural de projectos em evolu-ebulição. Conto ter mais tretas para partilhar brevemente. 

Para já aponto que está adormecida a minha colaboração com o BE coimbrão e hibernados os projectos de Alcobaça (4) e do Corvo (3).

20060327

56454º´\º\º~º~º´\~~~~~

TELEXPLOSIVES

Meu deus, meu deus, isto soa a piada!? Andam praí telelés a explodir! Será das baterias chinesas que custam uma bagatela? Dos carregadores ciganos por tuta e meia? Das capas e acessórios das grandes superfícies ao preço da uva mijona? Dos carregadores de isqueiro ao preço da chuva? Ou será uma stunt, um plot, uma manobra publicitária por parte das marcas para veicularem em todos os media que os acessórios de origem são os únicos fidedignos?

Eu espero para ver, enquanto acaricio o meu nokia 8210 com bateria e carregador chineses.

ç~\ç~\l\ºººººpppppppp

CONADÁ, LAND OF THE FREE 

1
Hoje odeio especialmente os canadianos. Hoje apetece-me abater uns quantos canadianos à paulada com um pau com um espeto na ponta. Hoje nutro sincera antipatia pelo governo canadiano e pelos canadianos (ou tipos doutras nacionalidades) cuja função é caçar focas com um gostinho assassino resplandecendo da boca.

Mas a antipatia recrudesce pela desmedida falta de ligeireza e humanidade para com os imigrantes! Mas disso falo adiante.

Na questão das focas, leio e vejo que mataram 25 mil crias até agora, após a abertura da caça à foca. Fico horrorizado ao ver cenas macabras de animais (só assim os posso chamar, de animais) a correrem na direcção de crias indefesas e abatê-las com aquele estúpido gosto de caçador em busca da presa e com a apregoada desculpa de controlo das espécies! E tudo em conivência – nem beneplácito, antes encorajamento – por parte do executivo canadiano!

Vê-se por aqui que a crueldade e estupidez humanas não encontram limites que possam facilmente ser demarcados, havendo desculpa para tudo o que se faz! Não percebo é determinadas coisas em todo este caso... Não percebo tudo, vendo bem...

Primeiro, parece – parece – haver um descontrolo no número das focas, um crescimento desenfreado que as faz tomar as proporções de praga, certo? Mas se não há interferência com as culturas humanas (que é a verdadeira definição de praga, tudo o que interfere com a nossa vidinha, devendo ser por isso fervorosamente erradicado) porquê a aniquilação sistemática deste ser? Podem contrapor o seguinte: que existe interferência com os pesqueiros, daí que assuma os contornos de uma praga, mas não vejo como isso possa ser explicação; as focas dificilmente interferirão com a quantidade de peixe existente no Canadá, que conta com uma biodiversidade riquíssima, com alguns dos maiores pesqueiros do mundo e, em que não existe uma tremenda necessidade de alimentar multidões de esfaimados dado que sendo o segundo maior país do mundo, tem das menores densidades populacionais e a interferência directa será com o acossado povo inuit, vulgo esquimós, que não me parece que mereçam uma atenção especial por parte dos pseudo americanos governantes canadianos.

Podem rebater o que escrevi ainda com a ideia de que se as focas são demasiadas tem que ser nivelado o seu número. Mas eu escrevo ainda antes disso ser colocado na mesa para não dar tréguas: se as focas cresceram exponencialmente é porque não existem predadores em número suficiente para se encontrar o equilíbrio do número de indivíduos (e não existem predadores porque esses foram também inconsequentemente caçados e aniquilados como a foca-leopardo, a orca e o urso polar) e se existem demasiadas é porque as condições o proporcionaram: existirá alimento suficiente para esta vaga de juvenis. Se o não houver, o equilíbrio surgirá naturalmente sem a crua interferência humana! E não me venham dizer que esta atitude é o melhor para as focas, pois se evita o sofrimento de uma morte por fome! Mas se morrem milhares de crias ao ano pela boca do predador e pela triste inevitabilidade da fome! Além de que, com esta caça sistemática, se perde a objectividade fundamental da corriqueira selecção natural das espécies: quem garante que os caçadores não eliminam os melhores indivíduos deixando os pior preparados para viver? Pois...

Eu vejo três soluções possíveis da qual escolheria uma: ou se deixa a natureza seguir o seu curso, eliminando as crias em excesso e permitindo-lhe seleccionar os melhores para perpetuar a espécie no melhor sentido; ou se introduzem novamente os predadores juntando à primeira hipótese uns quantos esfomeados seres, mas não sedentos de sangue, caçadores, para ajudar a compor os números ou ainda, considerando que o governo do Canadá ache por bem interferir para melhorar a vida das focas (hahahaha) achando as duas supracitadas vias como caminhos difíceis e nem sequer equacionáveis – por falta de bom senso e despudor – então aí sugeria aos benfazejos caçadores o manejo de armas mais coadunáveis com a sua natureza de amantes dos animais: pistolas, espingardas e carabinas para que com um tiro certeiro na nuca da foca esta não passe por minutos de intensa dor até ao último estertor antes da morte. Seria uma hipótese mais humana? Espero que não falhem no momento e não dirijam o cano da arma para si ou para outros benditos colegas contribuindo para a erradicação dos cabrões que para aí andam.

2
Já em relação aos imigrantes no Canadá (e aos nossos emigrantes, particularmente) não compreendo uma coisa que não tem surgido nas notícias: se existem ou não e a quantidade de imigrantes de outras nacionalidades. 

Chateia-me especialmente que o Canadá funcione assim para com cidadãos estrangeiros (e nem me interessa o caso português, interessam-me todos os envolvidos) dado que é, ele próprio, uma manta de retalhos. Coexistem aqui imensas culturas, línguas e nacionalidades que não se compreende que expulsem por água vai milhares e milhares de pessoas! 

Há falta de espaço? Deixem-me rir, os horizontes do Canadá são intermináveis, existem muitas terras por ocupar no Quebec, no Labrador, em Saskatchewan, em Ontário...

Existe desemprego para os nativos? Rio ainda mais e quase me engasgo com as gargalhadas! Esta é a velha questão do imigrante mau que vem roubar trabalho ao pobre coitadinho autóctone! É uma falsa questão, ó se é! Os imigrantes ficam sempre com os trabalhos de merda que os naturais não querem e só na segunda ou terceira geração (caso decidam permanecer) a vida começa a melhorar.

Os imigrantes são problemáticos?

Não acredito que a grande maioria o seja. Esse argumento não foi arremessado mas se o fôr será de índole propagandística, apenas!

Já o afirmarem que se encontram em situação ilegal isso toma dimensões de ridículo! Quando alguém viaja para um país em busca de melhores condições de vida vai para arranjar um trabalho, quase nunca leva já um trabalho prometido! E, se correr bem, começa então a estabelecer-se e aí sim, começará a procurar a legalização. É assim que se processa, ou vamos impedir a natural dispersão humana encerrando as fronteiras impedindo todas as hipóteses a quem procura um melhoramento da vida? 

Tudo isto me parece ridículo e hoje odeio mesmo o Canadá!

20060207

/(/(//&&/%&%&%#&###~\

LEITURA DA FACE LATERAL DO MEU TABACO DE ENROLAR 1 

Pois, não deixei de fumar, mudei foi o tipo de tabaco que fumo. Agora fumo tabaco de enrolar. E este avisa no dístico a preto sobre branco: 'Fumar pode reduzir o fluxo de sangue e provoca impotência'

Bem, falta-me o conhecimento para aferir sobre os limites médicos do primeiro período da afirmação. Acredito. Assim como na segunda parte da frase, que aceito como verdade irrefutável. Sobra-me pouco espaço para humor negro com esta frase aqui. Podia dizer que o que não me falta é potência, mas seria um pau mandado do humor grunho e brejeiro. Passa. 

Agrada-me apontar que este tabaco é muito mais saboroso e barato do que o Ventil que fumava antes. E esta verdade é, ela também, inabalável.

20060124

º\´-~\º\\~ç\~\ç-º.´-º.-´.~\-~.-\-.-

ALHEAMENTO NA CIDADE 

Buscando inspiração no monocromático azul do tecido que se me opõe neste assento do metro desta metrópole imunda e fantástica que é Barcelona. 

Gosto de me sentir anulado como habitante desta grande metrópole. De me sentir ninguém em especial, de ser normal, um como tantos, outro no meio de outros. Ser mais um desta Metropolis, e se não estivera ou faltara, melhor ainda que nenhuma falta fizesse e nem fosse notada a ausência. Porque gosto de sentir a indiferença com que me presenteiam, e de retribuir esse mesmo desinteresse. Ah, da nulidade como cidadão especial, como é bom ser anónimo, absolutamente incógnito, ser outra ovelha na ruidosa multidão deste rebanho urbano!

Sinto um gosto especial, enquanto utilizo os transportes públicos de Barcelona, pensando em que o fazia simultaneamente com outros milhares de pessoas em diferentes direcções rumo ao seu trabalho, num afã quotidiano e desafeiçoado. Umas rumavam das vastas populosas periferias para trabalhar no maciçamente sobrepovoado centro da cidade, sempre buliçoso, e conspurcado, ocioso também, mas em movimento contínuo, 24 sobre 24 horas. Outros ainda, em menor número que os primeiros, seguiam o destino contrário, indo trabalhar para os subúrbios em sei lá que funções terciárias ou secundárias em que estariam empregados. Quase todos levavam algo que ler, ou o Metro – jornal gratuito diário, comum às metrópoles mundiais - deglutido pela trigésima vez nessa manhã, ou calhamaços que denunciavam muitos como estudantes, ou estrangeiros (como eu, a ler Saramago, com olhares inquisidores perante títulos exóticos como: Manual da Escrita e Caligrafia ou o Ensaio Sobre a Cegueira) e insuspeitos amantes de literatura. Outros ouviam música, inaudível a quem do exterior o tentasse, com auriculares enterrados nos pavilhões auditivos, escondendo invariavelmente - efeito pretendido ou não - a mescla sonora do metropolitano ou do autocarro. Os restantes ocupantes olham para o vazio, congeminando listas e planos ou tentam ler o objecto de leitura do vizinho, pois infe lizmente se esqueceram do próprio.

Eu, por mim, gosto da diversidade de sons dos transportes desta grande cidade: o buzinar estrepitoso e por vezes colérico do condutor; o toque de recolher das portas do metro; o vozear das gentes, em milhentas línguas, muitas delas ininteligíveis; a cadência sonora da composição sobre os carris; os silvares da mesma sobre o metal e o som de objecto estranho (que é o metro ao desbravar estes escuros túneis) ocupando velozmente o que ainda há pouco era espaço vago, expulsando o ar pelas laterais, como uma bala empurrada fatalmente pelo cano da arma.

Gosto deste alheamento que sempre saboreio ao saber como pouco significamos numa grande metrópole. Que somos mais uma peça da engrenagem da máquina urbana, que não soçobraria se faltássemos um momento que fosse, pois é uma máquina tão complexa, feita de inúmeras peças humanas com o mesmo valor que eu – ou seja, completamente e idealmente desnecessárias. Faço parte desta cosmopolita mole humana, sou igual a tantos outros como se fôramos uma fileira de indecifráveis faces de cidadãos da Eurásia (desse Orwell que por aqui também andou e que por aí deixou pedaços da sua carne), tão insignificante para fazer diferença no imediato. O que faço seria imediatamente feito por outro chamado a preencher a minha vaga.

Sou parte da paisagem urbana e contento-me por passar despercebido no meio dos demais – e dos demais me passarem ao lado. Gosto de comparar a vida aqui como se se tratasse de um colossal formigueiro, com todos a trabalharem para o bem comum (ou para a desgraça alheia) como formigas, sempre correndo agitadas, para lá e para cá, cegas perante outras, só tactilmente e fugazmente próximas. O melhor de viver numa cidade imensa como esta é mesmo a ausência de estarmos, para os outros habitantes é indiferente estarmos ou não estarmos, existirmos ou sermos, se estivermos somos mais uma cara na galeria de rostos irreconhecíveis; se não, não. Mas existem ligações, amizades, contactos, conhecimentos, claro! Mas não na fria e concorrida atmosfera de um transporte público. Só no exterior, na cidade autêntica. Mas aqui, nunca se entabula conversa prolongada com ninguém.

Barcelona, num qualquer dia de feira de Fevereiro de 2004

20051229

!"#$%&/()=)(/&()(/&%&/((/&%$%&/(/&%$%&/(/&%$

LEITURA DA FACE LATERAL DO MEU MAÇO DE TABACO 5

Deixar de fumar reduz os riscos de doenças cardiovasculares e pulmonares mortais

Afinam as frases pelo mesmo diapasão, continuamente e sem cessar, numa cabala publicitária posta de maneira a ser imediatamente absorvida pelo consumidor de tabaco e com requintes literários de horror, a dissecar as entranhas do fumador, a comprová-lo como bicho sem saúde, a condená-lo a uma de mil mortes certas e a provocar, nem que seja, um ligeiro esgar de nojo de doença na cara de qualquer um que fume. Bem hajam por serem tão frontais e enérgicos. Mas peço mais, peço imagens peçonhentas, esclarecedoras, fatais e viscerais! E peço o aumento do preço desta infame bostela.

20051226

ªªªªPPO8787655

LEITURA DA FACE LATERAL DO MEU MAÇO DE TABACO 4

Fumar prejudica gravemente a sua saúde e a dos que o rodeiam

OK. Esta é uma afirmação imbatível, pois que me considero generoso e respeitador, embrenhado desse mesmo humanismo altruísta que definia os iluministas optimistas do passado. Não quero que ninguém sofra por mim, vou já para a minha área de fumo, a minha zona de fumador, o meu cubículo encantado e enfumaçado, o meu vão de escadas afastado, o meu ar livre descomprometido. Sem chatear ninguém a não ser eu próprio e a minha requintada saúde.

`ºº´´ªªª``ªª~~~\\~~

LEITURA DA FACE LATERAL DO MEU MAÇO DE TABACO 3

Fumar provoca o envelhecimento da pele 

Como? Perdão? Não é inquestionável, inevitável mesmo, que a carne sucumba perante o avançar dos anos, que a epiderme se desgaste, se degrade, se decomponha? Dir-me-ão: aspirar esses viciosos canudos acelera o processo, abre gretas mais fundas e mais precocemente na pele. Certo, concordo, já me sinto a definhar a cada minuto que passa, mas não será apenas pelo tabaco que inalo, nem pela nicotina que absorvo, nem ainda pelos químicos que assimilo, mas também, e sobretudo, pela natural e irremediável decadência do ser!

!!"""2333$%%%&&//()

LEITURA DA FACE LATERAL DO MEU MAÇO DE TABACO 2

Fumar mata

Isto dito assim, categórica e peremptoriamente, sem contemplações, assusta qualquer um, mesmo os mais duros fumadores de cachimbo, de entusiásticos sorvedouros de chicha, de ultrapassados mascadores de tabaco e rapé e de meticulosos artistas aspiradores de tabaco de enrolar. Mas encontra um senão com um s enorme a capitulá-lo: já todos o sabemos, mas poderemos nós todos trocar um saboroso vício assassino por uma falta decadente de nicotina? Hmm

&&&&&&666666¶¶¶¶¶¶

LEITURA DA FACE LATERAL DO MEU MAÇO DE TABACO 1 

Os fumadores morrem prematuramente

Esta frase leva-me a primeiro a afirmar que sou de facto um fumador, pronto, catalogo-me, não sem alguma tristeza pelo facto. Depois leio ‘morrem prematuramente’, ponto da afirmação acima colocada, onde me questiono pela validade deste advérbio: quão prematuramente? Estaria eu destinado viver até à centena, até perfazer um século e, inspirando os 3400 químicos, alguns dos quais cancerígenos, aspiro a uma morte prematura, cerceando esses últimos anos de provável senilidade para uns meros oitenta? Ou, como prematuro, entender-se-á que morrerei aos trinta, sem ter chegado aos enta? Muitas questões a ponderar e uma decisão a tomar: deixar definitivamente o cigarro, apagar o último destes com raiva sobre o cinzeiro já demasiado castigado e seguir com a vida, sem este tolo vício (a quem nem nicorettes e niquitins souberam pôr termo), almejando viver até aos setenta, pelo menos.

))))(())(())(()(())(HHH

MULTIPLEXES KILLED THE CINEMA 

A população de Coimbra sempre esteve mal servida no que a questões cinéfilas concerne. Eu cresci com o Tivoli e o São Teotónio ainda a funcionar e vi-os cair. Vi o Giras Solum metamorfosear-se de uma boa sala de cinema para dois cubículos de junk cinema. Não conheci o Sousa Bastos nem o antigo Teatro Avenida. Identifiquei-me sobretudo com o novo Avenida e as suas salas, caricatamente afastadas umas das outras, com a sua labiríntica rede de lojas, mas sobretudo com o atendimento personalizado e afectuoso, o ambiente familiar e as sessões de cinema sem pipocas e sem intervalo, à cinéfilo comme il faux, puro e duro. Durante anos o Avenida foi o meu cinema, com as suas sessões especiais e em conjunto com o TAGV, com os seus ciclos de cinema de autor, organizados pelo fila K. Não suportava o Gira como o deixaram.

Depois da enxurrada de multiplexes em portugal na década de 90, Coimbra permanecia imaculada, intocada. Até que abriram as primeiras salas de fast food cinema e, então, foi a hecatombe! O Gira fechou e o Avenida reduziu-se a duas salas, com menos sessões, não tão tardias e sempre às moscas. Perspectiva-se difícil a manutenção.

Agora sabe-se que abrirão dois novos complexos cinematográficos, com mais 6 e 10 salas, o que se constituirá no toque de finados definitivo para o Avenida.

Coimbra viverá de multiplexes, de cinema aos rodos e gente aos magotes, com intervalos a truncarem estupidamente os filmes e com companheiros do lado a sorverem refrigerantes e a mascarem pipocas, enquanto esperam pelo intervalo, para se alambazarem com o seu hamburguer, a sua sandes, o seu cigarro.

Outras cidades souberam manter as pequenas salas de cinema, intimistas, precárias, mas que relembram a verdadeira génese do cinematógrafo, meia dúzia de aficcionados a consumirem cinema de verdade, filmes bem feitos e não o Harry Potter 3000 ou a quinquagésima sequela do The Ring! Leiria, Aveiro, Lisboa e Porto mantêm pequenas salas, que resistem à voragem e infinita e sedutora atractibilidade consumista dos cinemas gaveta. Permanecem com ciclos de cinema paquistanês ou indiano, como sala de mostra de indy cinema, de Sundance, de Cannes, de San Sebastian, de Berlin. Ou teimam em mostrar o mainstream concorrendo com os monstros de cinema farta-brutos.

Eu vou ao cinema para ver um filme. Sem mais nada, sem outro objectivo que tal, sem sobressaltos de bilheteira e lugar marcado, sem salas carregadas que nos empurram para as odiosas primeiras filas, sem o chocalhar das pipocas, o rumor das gomas e chupas e sem a sofreguidão oral dos refrigerantes aspirados.

Sugiro que recuperem o Sousa Bastos, o Avenida e o Gira como salas contra a corrente, que expulsem a Zara do Tivoli e o restituam como era e que ressuscitem o São Teotónio. Que devolvam a Coimbra as pequenas salas de cinema, únicas, autênticas, urbanas, íntimas e cinéfilas. Obrigado.

20051221

#####"""""""

GUERRILHA URBANA 

Surge este novo manifesto contra a fealdade humana, mais especificamente a construída, a urbanizada, a descomandada, a insensata. É um manifesto de imagens, de momentos capturados para condenar o descontrolo edificado. O capturador-de-imagens sou eu, acompanhando-as regularmente com acessos de virulenta crítica que não conseguirei aplacar, nem o quereria. O que procuro é o desmascarar e o triangular dos escarros que brotam por este país. Aceito contribuições escritas e gráficas e espero semear desgosto e inconformação, para depois colher sementes de vontade e trabalho, de mudança e rigor. Para nosso contentamento e benefício do país real.

Inté

20051220

%%$$$#$###"#""""

URSO VERDE NO PARQUE VERDE 

A anormalidade tomou forma, ontem de madrugada, pela mão de uns pirómanos reveladores da mais franca boçalidade humana... destruíram o urso!




como era :



Poetado :

URSO EXTRAPOLAR

Brinca alheio ao leito que lhe humedece as raízes e lhe flanqueia o verde corpo polar
Espera pela noite, quando guardado pela torre desta Lusa Atenas,
Rebola a fronte sobre a relva e saltita pesadamente pelas margens molhadas
Sem olhos atónitos que o amarrem

Já de dia, espera as crianças para lhe afagar as pernas, afecto de verde
Que se empoleiram no seu colo, repuxando-lhe a esverdeada pelagem do tronco
Tentando alcançar esse focinho de esfinge, sempre atento e ausente

Chamo-lhe Bazófias, urso vivo mas sintético
Nascido do verde que o adorna e que o acompanha,
epiderme débil de todos os seres, vivos e imaginários, nascidos da terra.

Espera nova noite, nela se há-de absorver
Urso feito pardo brincando.
fotos de rafael vieira

20051030

(((((((//////

PANFLETÁRIA AUTÁRQUICA

toda a parafernália (infernália) autárquica continua no seu lugar dias e dias após o escrutínio eleitoral. O BE em Coimbra (e escrevo de Coimbra e partilho a situação dos cartazes propangandísticos pois aqui vivo, trabalho e conheço o meio) aproveitou o espaço que ocupou durante a última campanha com construtivas representações gráficas dos projectos de lei e situações de injustiça que pretende ver alteradas. Ganha o eleitorado interessado e o alheado cidadão por acrescento subliminar. Ganha o Bloco pelas suas reivindicações atingirem o máximo de público possível, alertando, comunicando e contaminando (com ambição de mudança) os cidadãos para as medidas necessárias para o país (como por exemplo a questão da maior tributação sobre grandes fortunas, mais que justa). Já os outros partidos de Coimbra (o PS e a coligação de direita PPD-PSD+CDS-PP+PPM) deixaram quase toda a sua propaganda no mesmo local desde há um mês atrás, ao sabor das intempéries que as vão descosendo e maltratando com bátegas de água e sopros violentos do vento que as hão-de arrancar definitivamente da sua base de eleitoralismo. Que atitude cívica e higiénica, a de esperar que a natureza desfaça o trabalho devido aos homens, o de desmontagem ou substituição de toda esta imagética política! Não me consta que o papel com cola seja rapidamente ou sequer biodegradável, o que sai degradada é a imagem da minha cidade com esta desnecessária e decrépita poluição visual.

O que se passa em Coimbra, passar-se-á por todo o país certamente. Gostava de ver realizada alguma mudança de atitudes e comportamento perante esta situação, para nosso contentamento e amadurecimento.

20050920

/&&//&&/&/&/&/&

CINCO HORAS DA MANHÃ REDUX 

Como certas coisas nos dão prazer

(texto "5h da manhã" adaptado e acrescentado)

Estou num daqueles momentos de introspecção, a meditar em tudo e tudo me passa pela mente. Entre os demais pensamentos lembrei-me que precisava de lavar o interior do meu carro, pois tinha reparado ontem que estava cheio de pó, de restos de terra, de desperdícios de tabaco e demais detritos deixados por sei lá quem que o co-habitou comigo por escassos minutos.

Como a meditação solitária parte de uma vontade de clarificar ideias e permite atingir um estado de temporária e invulgar lucidez (pelo menos para mim funciona assim, para outros de outra maneira funcionará), pensei, nesse estado de harmoniosa clareza: Deixa-te disso, és preguiçoso q.b. para o lavares, não gostas de gastar o guito para outros o lavarem pois achas isso quase ridículo e, além disso, até é bonita a ideia de manter aqueles pedaços de vivências que estão ali a recordar coisas passadas. Como coisas tão triviais nos ocupam a mente nos momentos que pedem objectos de análise mais profundos! E como consigo encontrar poesia nas coisas mais abstrusas!

Mas explico o meu entendimento, para não ficarem a negro sobre o que me vai na cabeça: os sedimentos nos tapetes, a poeira castanha na consola (vulgo tablier) e a cinza de cigarro (e queimadelas pontilhadas pelos estofos também) puxam-me a memória de acontecimentos já quase esquecidos. Viagens, noitadas e fugas assomem-me agora à mente, numa visão feliz que recordo com um traço mais redondo sobre a face: um sorriso bem aberto!

Os tapetes têm terra deixada por tantos e tantos amigos e tantas pegadas de tantas viagens de tantos lugares aqui se acumulam! E o pó castanho avermelhado que persiste sobre os plásticos da consola? Trazem Zambujeira, Algarve e Paredes de Coura à memória do momento... Noites e dias de Aveiro, Leiria, Coimbra e Porto aparecem também, amigos e amigas! Até um beijo de boca feito pó aqui já existiu, pelo exterior do vidro! Mas este o vento e a chuva trataram de apagar, foram esvoaçando os últimos grânulos até não ficar nada de nada (e esse beijo interessava que sumisse, por mágoa). Réstias de momentos bons que vivem no carro e assim também na minha memória...

O meu carro é um collector of memories, um catálogo de vivências, um álbum de imagens soltas. Podia deixá-lo assim para ir sorrindo de tempos a tempos ao olhar em volta – mas outras poeiras cobrem estas antigas e ok, estou a tentar embelezar uma coisa que talvez não seja assim tão bela, serve como desculpa para eu não lavar a porcaria do carro... A memória serve-me perfeitamente e melhor ainda que um carro sujo e vacilante.

Amanhã encaminhar-me-ei para a lavagem e aspirarei com afinco todo o pó que resiste.

20050905

&&&%%&&&6666666

SANGUE NA BOCA

Com que frequência nos cortamos?

com dureza e profundamente, até espirrar sangue.
com afinco de maquetista, maqueteiro de horas tardias e de prazos exigentes.
com profissionalismo de casebre, com alternância de sanidades.

bem, cortamo-nos algumas quantas vezes, mas nada de trazer carne ao penduricalho, apenas cortes superficiais, rasgões de epiderme, fendas.

nada de profundas feridas que se assemelhem às infligidas pelo lúgubre e desesperado carniceiro, talhante do Delicatessen do Jean-Pierre Jeunet ou as imaginadas perpetradas no misterioso e sombrio talho com o tal special product, da League of Gentelmans.

hoje, esta epiderme em redor da boca, rasgou-se e quase que chorou... sniff, sniff...

quarta extracção do arquitectices, adaptado

&%$#

CAFÉS 

sempre muitos, sempre!
serei a reencarnação de victor hugo? 
le miserable vice que sempre necessário!
ó fachavôr, é mais um café!
os viciados serão sempre uns miserables

terceira extracção do arquitectices, acrescentado

&&&%%%$$$


10 HAIKU POR TI

Li, numa forma poética nipónica, milenar, de três versos de cinco mais sete mais cinco sílabas composta - haiku, exponho-te o meu amor. Cumpre-se a métrica rígida e obedece-se à temática, sujeitando as poetadas à partilha de sentimentos e não à descrição de lugares e de gentes. Segue.

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

vindima em pombal de ansiães

beijo húmido
mosto fez-se em vinho
e rubro fiquei

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

ópera rock no TAGV

pernas e braços
ansiosos; pastilha
grudada – frustrou!

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

ano em Allariz

rio de espera
com termas e sob termos
e não fui porque...

ano en Allariz 

río de espera
con termas e baixo termos 
e non fun porque...

(galego reintegracionista - lusista)

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

praia e monte real

conversa n’areia
olhos alinhados mas
com beijos adiados

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

dois em barcelona

beijo mágico
antecipou-se, então
BCN fez-se nossa

dos en bcn

Peto magic
S’ha adelantat, doncs
Bcn s’hi a fet nostra

(catalán)

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

fim de semana em madrid

corridas loucas
bairros, cores, odores
madrid, a feia!

fín de semana en madrid

corridas locas
barríos, colores, olores
madrid la fea!

(castellano)

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

três dias em lisboa

cruzados alçando
cruzando sete bairros
alface te dei

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

mil e uma noites d’amor

em amor, leiria
mil e uma noites mil
de amor claro

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

quinze dias em aljezur

vale(s) d’ homens
vazios de gente
beijo d’ areia

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

dias de coimbra

já em coimbra
cumpre-se um amor, de
palavras feito

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

conclusão técnica :

1
mapeando estes encontros

Pombal de Ansiães fica em Carrazeda de Ansiães, Trás-os-Montes
TAGV, sigla de Teatro Académico de Gil Vicente, Coimbra
Allariz fica a 30 km para Sudeste de Ourense, Galiza
Monte real, vila termal e base aérea a 20 km a Norte de Leiria
Barcelona é a capital da Catalunha
Madrid é o centro da Península e sede da administração espanhola (real e política)
Lisboa é a capital de Portugal desde 1255
Amor é uma pequena aldeia a 13 km a Norte de Leiria
Vale dos Homens é uma praia de Aljezur, na costa vicentina do Algarve
Coimbra foi capital de Portugal até 1255

2
traduções
preciosa ajuda a traduzir para catalão de Daniel Guerra e para galego de Xisbe.

!!!!!""""""""###$

POLEMICUZINHO

1
como te disse, não podia ficar com estas atravessadas.
o que aqui vai foi por ti próprio pedido porque então a querela espoletaste!

a base da sólida contra-argumentação - o princípio da boa discussão é deixar o outro contra-argumentar, só assim se mantém alto o nível da conversação, pois os objectivos finais da construtiva dicussão é o de ensinar mas também aprender. mudar mentalidades é secundário, os oponentes terão certamente bem estabelecidas e enraizadas as bases do seu pensamento.

e se te deixei contra-argumentar, sobretudo não me deixaste argumentar.

e além dessa questiúncula da "burguesia", aponho outras mais antigas que foram ficando por esclarecer.

aí vai, num decrescendo cronológico:.

2
"o poeta é um sofredor?"

se bem que nem todos os poetas possam trazer "numa mão a espada na outra a pena" precisam de alguma experiência de vida para depois a partilhar, abstracta ou concretamente, adocicando-a ou metralhando-a para quem o lê. se nem todos os escribas salvam os seus tesouros-escritos "nu'a mão" e perdem na confusão a sua dinamene, não deixa de ser óbvia a necessidade de passar algum pesar e de consolar alguma agrura para que então assome o criativo, vomitando os seus monstros em palavras, numa catarse sobre o papel!

muitos escritores são aparentemente pessoalmente desinteressantes, mas como saber se a sua vida pessoal não será escabrosa o suficiente para ser esse o seu fado amargo, o seu acre alimento vulcânico, o phatos catalisador da sua escrita?

por detrás do manto de palavras esconder-se-á a amargura.

3
"blood simple - sangue por sangue"

detestei blood simple como etapa no crescimento dos coen. 
não é qualitativamente um "raising arizona", um "brother where r' thou", ou um "fargo" ou ainda um "the man who wasn't there"! arrumo-o na gaveta baixa do ethan e joel e ao lado de "the ladykillers". mas é bom como objecto fílmico dissociado dos coen, mostra a imaturidade de um realizador por vir, uma promessa de qualidade posteriormente demonstrada!

e a obra dos coen não pode ser considerada como atípica, a irregularidade não assim tão evidente e fácil de apontar. existem constantes, uma fórmula repete-se dando origem a uma filmografia "quase" de autor: o argumento sumarento, os diálogos suculentos e as personagens bem vincadas estão sempre ali, tal como a paisagem (dos velts, dos apalaches) e a monotonia rural (como a de hopper) e de estrada americana (como a celebrada route sixty six - por kerouac)

4
"o dinheiro não dá felicidade"

o dinheiro não dá felicidade, mas trá-la.

camões viveu intensamente e feliz mas morreu na penúria. pudesse ter oferecido mais que umas folhas versejadas pelo jantar aos seus amigos e seria ainda mais feliz. cervantes morreu na miséria, miserável, cheio mas faminto.

todos os pintores e escultores vivem para expor e mostrar a sua arte, mas sobrevivem do mecenato e da compra das suas peças e precisam do dinheiro para comprar as tintas e a matéria para as metamorfosear em obras de arte. pigmento em imagem, óleo em luz, pedra em corpo. degas não precisou, felizmente.

a que seria última ceia foi providenciada pelo dinheiro de quem? maomé era rico (a condução de povos pede dinheiro e tempo), aponta-se que buda era príncipe e que os pré-socráticos, socráticos, platónicos, aristotélicos, estóicos e outros, usufruiram de trabalho escravo e eram abastados qb (o conforto do desafogo monetário permitiu-lhes dedicarem-se à meditação e a filosofar).

até o mais puro dos ascetas precisa de um utensílio manufacturado para compor os seus andrajos, uma guloseima ou fruta para a alma e até um capão para festejar uma conquista mística ou o atingir do inalcançável nirvana.

até tu, quando compras um tempero esquisito ou elaboras um demorado jantar para os amigos, compras um livro ou vês um filme que desejavas, compras um jornal com um dvd incluído ou passeias para descomprimir, vejo rasgar-se-te ainda mais o sorriso! tudo isto se fica a dever ao dinheiro dispendido.

directamente ou indirectamente o dinheiro traz felicidade, mas claro que não é tudo, não é o essencial. o principal é a felicidade. mas a infelicidade é aplacada com dinheiro.

mas não vou cair nessa ideia encantadora e simplista de achar que não o é, que posso viver totalmente feliz sem dinheiro.

e detesto a condescendência sobre a idade. não vivi tanto, mas tenho já a minha dose de perdas e ganhos.

5
"ser burguês"

esta é a mais complicada, porque a tens arreigada. mas o que me parece complicado de refutar, torna-se mais simples de abater.

apercebi-me que fortificaste esta opinião para defender a tua própria classificação do ser burguês, dos objectos burgueses, que constantemente colavas aos engenheiros. e o que partiu de uma brincadeira já há um tempo atrás (de atribuir este carro a este e este a outro), jogo que acompanhaste e alimentaste, até contribuindo, agora o tornaste numa batalha pela tua própria ambição de ter um jeep e não quer ser engavetado-classificado como rico.

por isso eu brinquei e assanhaste-te e assim tenho que defender o meu argumento perante o teu socrático e violento questionar.

tudo na vida é espartilhado e catalogado. eu sou um consumidor nato e tu também o és, fomos já amiúde ao dc, mas a este ou aquele centro comercial eu não me faço nem te faço a estatística das visitas! seremos burgueses por isso? não, talvez pequeno-burgueses. mas o que somos certamente é consumidores, ávidos consumistas. temos luxos, todos os desejam, sempre o ser humano deles necessitou e a eles aspirou. nas trocas directas, nas feiras francas, nos bazares, sempre se buscou e comerciou tudo.

a nobreza-burguesia (que se confunde e funde no virar do século - por decadência da primeira e riqueza da segunda), era e é a classe rica que tudo tem e mais ainda quer, nós somos os que contamos os tostões para ter algo do que queremos.

somos parte da magnífica classe média que suporta este país (ou plebe, ou arraia miúda, ou homens-bons, ou povo)!

eu por comprar coisas - gadgets - poderei ser encaixotado como burguês? achas que por seres comunista te podem confundir por estalinista, leninista ou trotskista? eu sou marxista e tenho-te também como tal. não te vejo a defender cegamente cuba e a coreia do norte, a lamentar a primavera de praga, e a condenar a queda do muro de berlim! defendes obstidamente cunhal? ou separas o homem do político e vê-lo como necessário para o país naquele momento mas indesejável como governante (pela obstinada ortodoxia), como eu o vejo?

por te afirmares comunista aceitas que te inscrevam nesse livro negro vermelho ou na bela utopia de marx e engels?

as palavras valem o que valem: um significado e um significante, moldamo-las a nosso bel-prazer.

6
chamem-me ressentido (e huxley batia nisso violentamente), chamem-me teimoso e casmurro (blogue casmurro) e ainda insistente, mas gostaria de tomar agora a discussão não como encerrada mas para já empatada em todos os seus tópicos!

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Segunda extracção do Arquitectices

20050901

|||||^^^^^^^|||

TEXTO A QUATRO MÃOS

Índice a um ensaio: 
1, por L., da natureza verde; 
2, por Rafael, sobre a humana natureza e 
3, por ambos os acima mencionados, em jeito de conclusão e combinando os pontos anteriores.

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

1
Tanta planta e animal, muitos bichos entre erva e outros mergulhados na água. Vastos prados de múltiplas cores e profícua fauna, herbívoros e carnívoros em equilíbrio necessário. Densas selvas com fugidios vultos vivos e perigosas feras. Zonas áridas de deserto enxutas de precipitação mas cheias de vida, com fecundos oásis. E Savana e taiga e deserto e sapal e florestas diversas e selva e gelo polar.

Esta é a imensa Natureza que me anima, a tal de Mãe Natureza, a que alguns se referem – cerimoniosamente, com carinho – de Gaia. A venerada veneranda deusa terra ou Mãe-Natureza, vulnerável e cruel.

Sempre que a idealizo a vejo verde por nestes prados ter nascido e ainda viver, mas a paleta de cores é infinita e impossível de abarcar por estes olhos desabituados. Contento-me em recordar animais de tiro lavrando revolvendo leiras castanhas, ares estrumados de saúde, gente alegre apascentando gado, pinheiros altos de pinhas cheias e com pinhas caindo, carvalhos e sobreiros. Aqui já houve lobos, linces e ursos, mas desses, infelizmente, cuidámos nós – rompendo a estabilidade natural.

Tudo isto faz parte deste Éden terreno para nós preparado pela santa evolução, fauna e flora.

2
Assumo-me como apreciador da natureza humana. Melancolias e alegrias são o pulsar das gentes, que se abatem e animam sempre e alternadamente. É este comportamento mesmo como uma onda hertziana, ondulando contínua e violentamente em altos e baixos de cristas e depressões.

O ser humano também é incapaz de se dobrar honesta e espontaneamente tal como espiga de trigo ao vento, obrigada a pender em respeito – se o faz, fá-lo em falsidade e não o fará de livre moto.

Da inconstância do comportamento somado à dificuldade do ser humilde temos duas das principais características humanas do homem; as sobrantes são quase todas traços do ainda (puro) animal que somos. E se somos racionais é por vivermos em racionalidade, ou seja, por estarmos entre e nos darmos com outros. Os comportamentos desviantes deflagram precisamente pela falta de socialização.

Somos emotivos, conflituosos e competitivos, procuramos o melhor mesmo que à custa do outro e mesmo que praticando algo de condenável – só condenado por quem vê – pela arte da dissimulação. 

Se aprecio a natureza humana é precisamente pelos seus humores imprevisíveis que sempre me apanham, deliciado, em sobressalto!

3
Fundindo fundindo-nos, mesclando as nossa ideias, fazemos que o homem também é delicado nenúfar e voraz planta carnívora, ambiciosa planta trepadeira e suave musgo, tanto é pacato preguiça como ávida rapina, aproveitador urubu e interesseira hiena, individualista chita e companheira piranha, calculista aranha e trabalhadora formiga, desinteressante galinha e brilhante golfinho. Tudo e muito. Muito mais.

O homem é a imagem da natureza e nós revemo-lo nela. Simbiose perfeita, não o podia deixar de ser, o homem é mais um animal plantado neste astro sobrevivendo (e sobreveio).

LiRa

%%%%%%%$

FACES 

Um cego acaricia a face de alguém, para o identificar, através de um movimento descendente pela cara. Faz este gesto, contornando com os dedos, as covas do rosto e as cavidades oculares; tocando ao de leve no nariz, na testa, na pele, com um cuidado com tanto de ternurento como de necessário.

Os dedos sorriem por esse gentil passar pelas pálpebras e pelas sobrancelhas, pelos olhos semicerrados e pelos lábios semi-húmidos, pela terminação do queixo e pelas faces que se percepcionam levemente rosadas.
Imaginas-me neste ritual entre as minhas mãos e a tua face?
Mas eu alio a este processo o funcionamento total da minha visão, a acompanhar esse tactear doce e prolongado. Porque quer-se demorado esse sentir. Posso então olhar-te com sedução e tocar-te de modo apaixonado, simultaneamente.
Posso eu, os meus dedos, brincar com o teu cabelo?
Fechar-te devagar e propositadamente o olho com um qualquer indicador?
Contornar-te os lábios e cruzá-los com os dedos?
Desenhar círculos imaginários sobre a tua face?
Pentear-te as sobrancelhas numa carícia intencional?
Percorrer percursos e criar trajectos inexistentes na tua cara?
Emprestar-te por momentos os meus digitais para te fazer sorrir?

^ÇÇÇÇÇÇÇ^^^^

CONTO DA ARANHA (a uma amiga desamparada)

Este era um conto para ser contado há já imenso tempo, pois então o tinhas pedido.
Não o pediste na forma definida de conto, pediste um escrito que na altura estava ainda indefinido o que viria a ser. Penso que perfazerá algo como três a quatro anos o tempo em que este ficou por contar! Agora vem, atrasado mas certeiro. E vem já com a forma definida, conformou-se na minha mente neste últimos tempos – a ideia já vinha pensada desde o início, desde quando o pediste, mas madurou agora e caiu, como maçã madura cai da árvore, sob o teu olhar. Tem a forma de conto, de fabulada história.

Todos os contos têm uma moral como advertência e ensinamento e revelam um caminho e uma orientação. Assim são as fábulas de Monsieur de La Fontaine. Assim são muitas outras histórias que apodamos de infantis mas que vão mais além no conteúdo e na complexidade do que dá a entender essa rotulagem. Interessa-nos compreender a mensagem no meio da falsa candidez.

A aranha vem já a seguir. Conto só o porquê do nome do conto. Estava um dia a contemplar uma teia e pensei que daria um bom tema para um texto. Ponto. Não conto mais do conto porque estaria a revelar demasiado do que revelarei já de seguida. Mantenho-me curto.

A aranha é um insecto aracnídeo, com oito patas segmentadas, ferozmente predatória e canibal. É dos animais mais antigos ainda existente, dos mais profícuos e prósperos. É dos que há mais tempo anda por aí e encontrarás uma onde fores, tanto no Saara como no Árctico. Existem de todos os tamanhos e hábitos: terrestres, aquáticas e até planadoras. Revelam ameaçadores instintos territoriais mas conjugam-no com uma quase enternecedora dedicação maternal (em algumas espécies).

Eu gosto muito de aranhas, aprecio a sua tenacidade na caça e meticulosidade na construção desse portento arquitectónico que é a teia. São umas prodigiosas arquitectas, as aranhas. Já tive várias como animal de estimação.

Olhava no outro dia uma teia e tanto apreciava o rendilhado de seda como me questionava sobre o crescimento das aranhas. Logo após dar à luz, os juvenis saem da teia materna e buscam o mundo. Sem contemplações, sem olhar para trás, sem dizer até já. Sei que falamos de animais invertebrados e descerebrados mas pode-se sempre fazer um comparativo com a raça humana, até porque nós próprios somos animais e não tão racionais como pensamos, escondemos muita brutalidade e existe muito de animalesco em nós.

Vou tentar fazer um paralelo com a espécie humana e talvez te sirva também. As aranhas jovens ao saírem da teia natal aventuram-se por um mundo novo até então para elas desconhecido, mas esta busca é tanto natural como necessária. Procuram um sítio para se estabelecerem, para montarem a sua teia armadilha ganha-pão, num espaço que reuna as ideais condições para a sua caçada trapaceira. E aí chegadas, as chegadas, porque muitas ficam pelo caminho por obstáculos vários, estabelecem-se e frutificam.

Assim também é o homem, necessita de sair e aventurar-se pelo mundo para crescer e acumular memória, experiências e conhecimento, saindo da casa materna (teia aconchego) e ir também à caça, à aventura, a buscar poiso, seu lugar no mundo. Queres partir à procura quanto antes, enquanto não se faz demasiado tarde? Queres ser uma aranha aventureira neste mundo cheio de cantos por ocupar ou uma mosca presa já numa teia tão acanhada sem tentar ser aranha predadora?

Espero que te sirva de inspiração este conto nada habitual.